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“Beyond: Two Souls”: como contar várias histórias de forma bela, envolvente e interativa na mesma obra

Beyond: Two Souls é transcendente. Ele transcende tanto videogames quanto filmes para se tornar algo ainda maior e mais envolvente do que qualquer uma das mídias conseguiria ser sozinha.

7 anos atrás

Eu, eu mesma e Aiden.

Eu, eu mesma e Aiden.

Eu terminei este “jogo” às 3:30 da manhã do último sábado. Fui para a cama com lágrimas nos olhos e pensando em cada decisão que tomei durante a história. Eu ainda penso nelas, mesmo agora enquanto escrevo estas palavras. O Beyond: Two Souls é transcendente. Ele transcende tanto videogames quanto filmes para se tornar algo ainda maior e mais envolvente do que qualquer uma das mídias conseguiria ser sozinha. Eu vou me lembrar deste jogo por anos, o que é bem mais do que eu posso dizer da maioria das obras de ficção, sejam elas filmes ou jogos, com que eu já tive contato.

Se você procura um jogo com uma história rica, profunda, envolvente, emocionante e não se importa com a falta de “controle” (que é sempre ilusório de qualquer forma, pois os jogos sempre tem limitações na forma de jogar) este é o título para você, no mesmo patamar de qualidade de The Last of Us, pois pequenos erros de continuidade e roteiro podem ser facilmente ignorados quando vistos da perspectiva do todo.

De qualquer forma, talvez o maior elogio que eu posso fazer a esta obra é que ela diverte. Não só diverte como envolve. Quando eu paro para pensar que alguma escolha durante o jogo que poderia ter feito a história caminhar para um final diferente ou ao menos com notáveis mudanças na linha narrativa, eu fico tomado pelo peso da responsabilidade das escolhas que eu fiz. Afinal de contas, Jodie era eu e eu era Jodie. Ele faz pensar, faz a emoção aflorar e é um exemplo perfeito de que jogos, assim como cinema e literatura, pode ser usados para divertir e transformar (ao contrário do que algumas pessoas do nosso governo parecem pensar).

Jodie, uma pessoa quebrada emocionalmente.

Jodie, uma pessoa quebrada emocionalmente.

Desde que terminei o jogo tenho lido críticas das mais positivas às mais negativas e só posso pensar que o Beyond: Two Souls não é feito para todos. Me parece que a maioria dos críticos perdeu profunda e tragicamente o ponto. Acho que a maioria dos que não gostaram o fizeram simplesmente por que não conseguiram aceitar o jogo nos seus próprios termos. Provavelmente estes jogadores tem certas expectativas quanto aos videogames e derivações das regras plenamente estabelecidas. Por exemplo, eles esperam interatividade, mesmo aceitando passivamente uma narrativa muito mais amarrada em termos de história. Em contraste, outras pessoas (eu incluso) podem ser muito mais flexíveis com suas expectativas em relação a esta mídia. A “passividade” jogando Beyond: Two Souls não me incomodou nem por um segundo. Eu sabia exatamente no que estava me metendo. Ele me lembra a ótima experiência com os livros jogos que tive na adolescência.

O roteiro é praticamente impecável e eu percebi muito raramente algum furo narrativo. No making of, há a informação de que David Cage levou um ano trabalhando entre doze e quatorze horas por dia para escrever as cerca de duas mil páginas que compõe todas as possibilidades narrativas.

A atuação de Ellen Page é verdadeiramente profunda e inspiradora, eu realmente não estou fazendo suficiente jus ao trabalho dela. Ela chegou a memorizar trinta a quarenta páginas de roteiro a cada dia. Ela tinha realmente pouco tempo para se preparar entre cada tomada, precisando se adaptar e criar diferentes respostas emocionais nas situações derivativas do roteiro, quando interpretava a cena que direcionava a narrativa de uma maneira para logo depois interpretar a mesma cena direcionando-a para outra continuidade. E, apesar de todas estas dificuldades, a atuação que ela mostra é consistente, efetiva e da mais alta qualidade profissional. É realmente difícil encontrar qualquer falha sem usa atuação, que é para mim, uma das mais talentosas atrizes em atividade atualmente.

Uma criança amedrontada e sozinha mesmo nunca estando sozinha.

Uma criança amedrontada e sozinha mesmo nunca estando sozinha.

Para os detratores de David Cage, pensem nisso: ele na verdade não tenta impor sua visão aos outros. Ele é apaixonado, sim. Ele tem uma visão e acredita nela. E FALA SOBRE SUAS CRENÇAS. Ele acredita que os jogos, assim como o cinema ou a literatura, podem mudar o mundo (ou ao menos tentar). Isso não é ser arrogante, é ser nobre.

Para mim o jogo é uma perfeita lembrança dos muitos desafios, triunfos, tristezas e alegrias que a vida oferece. Para mim, é um tributo à vida e as escolhas. Eu o considero profundo, rico e envolvente. Praticamente não existem outros jogos, ou mesmo filmes ou livros, sobre os quais eu possa dizer o mesmo.

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