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Coreia do Norte está seguindo a cartilha de Caracala; felizmente há a internet

Em prática comum em ditaduras, tio de Kim Jong-un condenado por traição está sendo apagado da existência em registros da Coreia do Norte e na internet

7 anos atrás

Kim Jong-un e seu tio, o então número dois da Coreia do Norte Jang Song Taek

Na última semana a comunidade internacional foi informada que o Grande Líder da Melhor Coreia Kim Jong-un, como bom ditador não é uma pessoa necessariamente boazinha, e que a rigor qualquer um está na sua mira. Até ele assumir o governo pensava-se que ele era uma figura um tanto decorativa por ser jovem, e que seria manipulado pela junta militar já calejada do governo local.

Não poderiam estar mais errados: desde que assumiu ele já mandou literalmente para a vala diversos militares de alto escalão sob acusação de traição. A impressão que dá é que o gordinho não só pretende governar sozinho como vai realizar uma limpa no país. E nisso até sua ex-namorada, uma cantora lírica foi acusada de gravar um vídeo pornô e disponibilizar na internet (qual?), e foi igualmente executada.

O mais novo a dançar foi seu tio Jang Song Taek, anteriormente apontado como o número dois do país e encarregado de ser o tutor do líder por seu pai, Kim Jong-il. Acusado de traição, a imprensa norte-coreana o descreveu como "pior que um cão" e "escumalha humana", diante das acusações de "levar uma vida depravada", com abuso de drogas, promoção de orgias, exploração de mulheres e jogo e de claro, liderar uma facção ante-governista. Ele já havia sido expulso do Partido Comunista, mas no último dia 12 ele foi julgado, condenado e imediatamente executado. Há informes de que diversos profissionais que trabalham no exterior e que teriam ligações com Taek foram chamados de volta, provavelmente para compartilharem do mesmo destino. Se vão voltar são outros quinhentos.

Não muito depois, como todo ditador que se preze Kim Jong-un apagou o tio da existência: todos os registros, fotos (inclusive algumas em que aparece junto com os líderes atual e anterior) e documentos foram removidos. O site da Agência Central Coreana que é hospedado no Japão foi sistematicamente derrubado:

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Quando voltou 45 minutos depois, todas as postagens centradas em Jang Song Taek foram apagadas e outras centenas que o mencionavam foram editadas, numa tentativa de exterminá-lo também na rede.

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Apesar de todo mundo se lembrar de Stalin nessa hora, a verdade é que a prática é muito, mas MUITO mais antiga. No Império Romano havia um termo para esse tipo de condenação: damnatio memoriae. O Senado ou o imperador condenava o réu (vivo ou morto), geralmente um nobre a ser apagado da existência, embora isso também tivesse um motivo financeiro, os bens do condenado eram confiscados pelo Estado.

Devido à própria natureza da pena os historiadores não tem certeza de quantos foram de fato apagados, por razões óbvias. Um dos registros mais curiosos é o Tondo (arte realizada num suporte redondo) da família de Caracala, imperador que construiu uma terma cujas ruínas impressionam até hoje. A arte retrata ele quando jovem e os pais, o então imperador Sétimo Severo e a imperatriz consorte Júlia Donma, além de seu irmão mais novo Geta. Ou em partes, já que o rosto deste último foi limado:  após a morte do pai eles deveriam governar juntos, mas Caracala decidiu que dois era uma multidão, armou para o irmão ser condenado à morte por traição (junto com 20 mil partidários; Roma não era moleza) e assumiu o império sozinho, relegando Geta ao esquecimento. Claro que pelo fato dele ter sido imperador escaparam um ou outro registro, mas imagine quantos senadores e outros nobres (essa punição não era reservada à plebe, afinal eles não tinham posses que valessem o confisco pelo Estado) podem ter dançado dessa forma e nunca ouviremos falar deles.

Antes dele outro imperador também foi apagado: Cômodo (é, aquele) foi considerado inimigo do império após sua morte e com certa razão: em sua megalomania ele se auto-denominou o novo Rômulo (além de se ver como o próprio Hércules) e havia até renomeado Roma para Colônia Comodiana. Foi o próprio Sétimo Severo (originalmente um militar a serviço de Marco Aurélio e Cômodo) que restaurou sua imagem de imperador para agradar sua família, do contrário poucos registros chegariam aos tempos de hoje.

A bem da verdade essa não será a primeira nem a última vez que um ditador tentará apagar um desafeto da história. Mas diferente de Roma temos a internet para preservar esse tipo de informação. Não que os nortes-coreanos a acessem de qualquer forma, mas mesmo assim não deixa de ser um registro histórico.

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