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Entrevista Exclusiva: Rodrigo Becerra–Brasilgov 2.0

Entrevista com Rodrigo Becerra, da Microsoft, sobre Governo 2.0.

9 anos atrás

Rodrigo Becerra se define como um apaixonado por governo e políticas públicas e como a tecnologia pode ser usada como catalisador para melhorar nossas vidas. Ele é ex-Chefe de Staff do Ministro das Finanças do México e hoje é Diretor de “World Wide Goverment Industry” da Microsoft. Um título impressionante para uma tarefa quase utópica: organizar o Governo Mundial Secreto através da Maçonaria, dos Illuminati, do Grupo Bilderberg e dos Otakus promover o conceito de Governo 2.0.

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Em vários lugares do mundo, mesmo no Brasil, os governos estão cada vez mais aceitando a realidade de que precisam ser transparentes e prestar contas de seus gastos e suas ações. A iniciativa Governo 2.0 vai além, é um projeto onde as redes sociais são usadas de forma organizada, pela sociedade civil E pelos governos, interagindo em busca de soluções para problemas, fiscalização de bens e gastos públicos e agilização da universalmente lenta burocracia estatal.

Alguns chamariam de Sofativismo de Resultados, mas sofativismo não dá resultado nenhum, já e-government, mesmo em sua fase 1.0 funciona, vide a Nota Fiscal Eletrônica.

A iniciativa tem braços no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde ocorrerá o primeiro Seminário, dia 8 de junho.

A conversa com Rodrigo foi bem informal, mas creio ter coberto a maior parte das dúvidas e desconfianças de uma geração que viu Arquivo X demais:

MEIO BIT: O que exatamente é a ideia do Governo 2.0 e de onde ela surgiu?
RODRIGO BECERRA: Para mim é a evolução do e-Goverment. A forma com que estamos acostumados ao e-Government era colocando serviços governamentais online, é uma interação de mão-única, entre governos e cidadãos e empresas e, em muitos casos, entre governos.

O Governo 2.0 em sua forma mais pura é o uso de tecnologias da Web 2.0 aplicadas ao contexto governamental para enriquecer, aprimorar e tornar mais valiosa e eficiente a interação entre cidadãos, empresas e governos. O e-Goverment não foi projetado para isso, então em resumo [o Governo 2.0] é a transição do Governo para você para o Governo COM você.

MB: Seria uma forma dos cidadãos vigiarem seus governos, do Governo vigiar a si mesmo ou você acha que pode funcionar de uma forma mais benigna, menos vigilantes, mais parceria?
RB: Eu acho que sim. Um dos melhores exemplos do Governo 2.0 veio da administração Obama, que baseou sua iniciativa de Governo Aberto em três pilares: colaboração, participação e transparência.

Se você pegar esses três pilares e realmente tentar trabalhar em cima deles, verá que eles servem para tornar o governo mais transparente ao mesmo tempo tornando todas as partes mais responsáveis. Eu não posso ser um Cidadão 2.0 se não participar.

MB: Nas eleições de 2008 a abstenção nos EUA chegou a 56,8%. As pessoas não parecem interessadas em democracia. Você acha que o Governo 2.0 pode mudar isso?
RB: Essa é uma excelente pergunta e eu penso que é diferente para cada país, mas uma coisa que tenho visto em comum é que cidadãos ao redor do mundo sentem um certo grau de desapontamento e desilusão com seus governos e políticos.

Eles não se sentem ouvidos, sentem que seus votos não importam, que seu envolvimento no processo político é mínimo ou próximo de nada.

Acho que as pessoas se interessam por democracia quando veem que sua participação tem um impacto. Sentem que podem voltar a participar. No nível local muito do que o Governo 2.0 tem feito é isso, dar aos cidadãos uma oportunidade de voltar a participar do processo político em suas comunidades locais. Veja, por exemplo, algo como o Fix My Street ou Miami 311 (serviço de call centre que atende chamadas de problemas não-emergenciais, como coleta de lixo, carros abandonados e frangos [não pergunte]). As pessoas podem acompanhar um follow-up das chamadas e ver os problemas locais em um mapa geoespacial, de forma forma transparente e ao vivo. Isso cria um outro nível de engajamento.

MB: Sim, mesmo aqui temos um monte de pequenos projetos como esses, mas quando começamos a falar dos peixes grandes, as coisas mudam. Prestação de contas não previne corrupção.
RB: Concordo, corrupção é um problema que é difícil de erradicar e não há bala de prata pra isso, mas o que pode ser feito é criar menos espaços onde ela possa florescer e crescer e aumentar o nível de prestação de contas..

Vou dar outro exemplo: no México o Governo decidiu tornar públicas todas as aquisições governamentais através de um portal chamado COMPRANET. Um dia, durante uma das licitações, um cidadão descobriu que a Presidência estava pagando US$ 4 mil por toalhas de banho para a Residência Presidencial…

Isso, claro, não aconteceu de novo, custou o cargo de vários funcionários em posições elevadas e o sistema continua funcionando bem até hoje, tem sido inclusive melhorado. Então, não acho que o Governo 2.0 seja a solução para tudo, mas é uma evolução para melhorar muitas coisas.

MB: Prestação de contas pode não ser suficiente, as pessoas precisam saber que podem exigir informações de onde o dinheiro é usado e quanto foi gasto. O Governo 2.0 pode ser um concentrador de cidadãos e ficar de olho nesses casos?
RB: COM CERTEZA! Uma das coisas que tornou o Governo 2.0 ainda mais proeminente foi a crise financeira nos EUA. Se você se recorda o Congresso aprovou um pacote de US$1 TRILHÃO para a recuperação econômica…

US$ 1 trilhão é o maior pacote que o Congresso já aprovou… Os cidadãos ficaram indignados com o Governo ajudando Wall Street e não a população, não ajudando o cidadão comum, por isso o Governo criou o Recovery.org, onde qualquer um pode rastrear os fundos e ver de forma transparente onde estão sendo gastos, quase até o último dólar. Foi um grande sucesso e vários países estão copiando esse modelo.

MB: Imagino onde vão esconder agora o orçamento da Área 51…
RB: Hahaha, isso não vai no pacote de recuperação, provavelmente no orçamento do Pentágono.

MB: Aqueles martelos de US$ 5 mil… bem, você pintou um quadro muito assustador para governos ineficientes e corruptos. Isso não os assusta? como você pretende vender a ideia do Governo 2.0 se ela significa um holofote sobre a cabeça deles? Ou os governos não têm escolha e o seu “comprador” é o povo?
RB: Eu acho que mais e mais vemos cidadãos exigindo prestação de contas e isso não aconteceu do dia para a noite. A razão principal é econômica. Governos, especialmente governos locais e regionais, estão enfrentando mudanças econômicas drásticas. Em muitos casos chega ao “como mantenho as luzes acesas?” enquanto ao mesmo tempo cidadãos, e em muitos países uma população mais idosa, exige mais serviços.

Então as pessoas querem saber para onde o dinheiro está indo, se percebem que estão recebendo menos serviços do Governo. E o que está acontecendo no Oriente Médio é um extremo. Não um exemplo convencional mas mostra o poder de organização das pessoas que já chegaram a seu limite.

Eu acho que os governos têm a oportunidade de subir no trem e influenciar e encabeçar essas iniciativas, ou alguém fará no lugar deles.

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MB: A Microsoft é o principal nome no Governo 2.0. Você acha que isso não vai levantar algumas sobrancelhas de gente com medo de grandes corporações dominando governos, etc, etc? Michael Moore não vai ficar feliz, tenho certeza.
RB: Eu acho que muita gente tem mostrado ceticismo, mas não creio que seja embasado. Vamos usar um exemplo mais tradicional: os sistemas operacionais da Microsoft rodam em 90% dos computadores do mundo… isso não quer dizer que a Microsoft tenha dominado nada… no caso do Governo 2.0 o que é importante é a co-criação que acontece com os cidadãos, é isso que gera valor. Seria impossível para uma corporação criar tal output.

MB: Como um fã de ficção científica eu adoro a ideia da tecnologia salvando o mundo, mas olhando em volta vejo um perigo, talvez estejamos criando um monstro. Em países como o Brasil o voto é obrigatório e o processo foi simplificado ao ponto onde mesmo analfabetos podem exercer sua cidadania. Uma iniciativa de Governo 2.0 exige computadores e Internet, coisas que a maioria das pessoas não possui. Por mais bem-intencionada que seja a iniciativa, não estaria criando uma elite de Digerati, excluindo todo mundo não-conectado?
RB: Concordo, existe esse perigo… Eu sempre alertei contra esse problema de “exclusividade”, e, claro, para a exclusão digital. Pessoalmente tenho muita esperança que os dispositivos móveis vão reduzir esse problema.

Se você pegar um país como o México, com penetração de Internet na fixa de 20% as perspectivas são bem desanimadoras, mas se você olhar para a penetração de telefonia móvel, está em por volta de 120%. Mesmo que estejamos falando de indivíduos com 2 celulares, é uma penetração de 60%, o que é muito melhor que 20%, e a tecnologia continua a se tornar mais barata, em muitos países desenvolvidos acesso a Banda Larga está sendo considerado um Direito Humano.

Então, atualmente sim, o prognóstico é desafiador, mas o futuro é promissor, e o México é o país da OCDE com menor penetração de Internet, é o pior exemplo.

MB: Aqui o Governo Federal lançou o Plano Nacional para Banda Larga, que prevê até 2014 cobertura nacional de alta velocidade a US$ 20,00/mês ou menos. Muitas cidades já oferecem Wi-Fi gratuito. Talvez a divisão não seja tão grande assim.
RB: Exatamente e o direito a uma conexão de Internet não é apenas em nome da democracia, mas uma necessidade competitiva. Quanto melhor a infraestrutura que um país ofereça, mais atraente ele se torna… e o Brasil é muito bom nisso. Estou de olho, o Brasil tem tudo para dar um grande salto, com os investimentos que serão feitos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

MB: Fica claro que o Governo 2.0 é um projeto que só funciona em uma democracia, mas ele pode ser usado para espalhar valores democráticos para outros países? O Governo dos EUA segue de perto a opinião pública através de redes sociais, mas é um processo reativo. O povo pode usar as redes sociais para exigir ações, mesmo em solo estrangeiro?
RB: COM CERTEZA! Eu acho que as redes sociais têm poucas fronteiras, exceto quando banidas, e alguns países as banem, mas é possível. Outro exemplo: recentemente houve uma grande mobilização, grupos no México e espalhados pelo mundo exigiram que o Governo do México parasse com os banhos de sangue dos cartéis do narcotráfico no país.

Claro, é um desafio quando se trata de países como a Síria, onde bloqueiam o uso dessas ferramentas, mas o que descobri que é os ativistas de mídias sociais encontram outros canais e os transformam em ferramentas semelhantes. Um egípcio compartilhou comigo que depois que o governo bloqueou vários sites de mídias sociais, eles se mudaram para sites de namoro.

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MB: Um homem muito sábio certa vez disse: "O Povo não deveria temer o governo, o governo deveria temer o povo”. Eu temo governos usando todas essas informações de mídias sociais para compilar uma lista de “baderneiros”. Estou sendo muito paranóico? Devo parar tomar água no bebedouro do Michael Moore? Ou, para citar errado Alan Moore de novo, Os Vigilantes estão sendo Vigiados?
RB: De forma alguma, sua preocupação faz sentido, mas no espaço virtual temos formas de manter um certo grau de anonimato. sempre existe esse medo, quem vigia os vigilantes etc., mas uma das questões-chave é que mídias sociais e governo aberto dependem de um certo grau de confiança. Acho que se você chegou ao ponto de ter esse tipo de paranoia, estamos falando de algo fora dos limites normais, e medidas diferentes, como no Oriente Médio, são necessárias.

Em um estado democrático você não só tem permissão, como é encorajado a participar do debate.

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MB: Agora um tema mais quente. Há lugar no Governo 2.0 para Julian Assange?
RB: NÃO! Eu não acho que Anarquia é  Governo 2.0 ou Governo Aberto. Acho que qualquer coisa que coloque a vida das pessoas em perigo não deve ser promovida. Acho que governos devem ser transparentes mas não ao custo da anarquia. Acho que o Wikilieaks gera grandes manchetes e com certeza teve seu impacto, e provavelmente alguns governos serão mais cautelosos, mas pessoalmente acho que ele apenas torna os governos mais propensos a se tornarem menos abertos e mais secretos.

Não se precisou do Wikileaks para mudar regimes no Oriente Médio.

MB: Concordo. Talvez para um adolescente de 15 anos cheio de ideais românticos faça sentido mas hoje sei que há coisas que devem permanecer secretas. Hitler adoraria saber com certeza onde os desembarques do Dia D aconteceriam.
RB: Concordo, concordo totalmente.

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