Meio Bit » Baú » Games » Brincadeira sem graça

Brincadeira sem graça

16/05/2008 às 19:17

Racismo é um tema que me tira do sério, fora ou dentro dos jogos. Não só o racismo declarado, mas principalmente o disfarçado do “eu não sou racista, até tenho amigos negros”. Agora tem uma modalidade que me parece mais perigosa, que é o racismo engraçadinho. Neste tipo, você nunca sabe direito qual o limite entre o “politicamente incorreto espirituoso” e o “racista nojento, vou te reportar”. Tem gente – sei lá quem, mas deve ter – que defende que, dentro de um jogo, devíamos poder falar essas bobagens todas e elas teriam menos importância porque, afinal, é “só um jogo”. Acabei de transferir minha personagem no WoW para um servidor cheio de brasileiros e estou assustada com os nomes supostamente engraçadinhos de personagens. São nomes que fazem referência a “neguinhos”, “bichinhas”, “vagabundas” e coisas assim, sempre de um jeito que parece (ou tenta ser) engraçado. E não me venham com esse papo de que aqui no Brasil usamos “neguinho” sem conotação racial, para designar uma pessoa aleatória em uma situação qualquer. Como bem escreveu o Alexandre em uma ótima série sobre racismo, só usamos “nego” pra falar do outro, do contrário, do errado.

Conta pra tia: você acha engraçado quando encontra um nome destes num jogo?

Outro dia deu no WoW Insider que existem 65 times de arena com o nome Rosa Parks Stole my Seat.

Pra quem fugiu da aula de história ou ficou preso em um abrigo anti-aéreo nos últimos 53 anos, Rosa Parks foi o estopim do movimento de diretos civis nos Estados Unidos. Quando os assentos nos ônibus eram separados, ela, negra, se recusou a ceder o lugar para um cara branco. Foi presa. Uma coisa levou a outra e Martin Luther King, Malcolm X, etc e tal, vocês já devem saber no que deu.

Aparentemente, tem gente achando que uma ofensa ridícula e maldosa como essa é justificável por ser “engraçadinha” ou “espirituosa”. Ou, talvez, por estarmos dentro de um jogo, onde as regras do “mundo real” não se aplicariam. Vocês concordam? O que fariam se encontrassem um grupo com esse nome? Reclamariam com os participantes, no chat público ou direto com o GM?

Eu reportaria. Uma, duas, quantas vezes forem necessárias pra esse pessoal aprender que racismo, sexismo, homofobia ou qualquer outra coisa do gênero não tem lugar no mundo de hoje. Nem de brincadeirinha.

...

Há controvérsias sobre o uso do termo “negro” ou “preto”. O IBGE considera que “preto” é um termo neutro pra designar cor. Algumas ONGs não concordam e acham que “negro” se referiria melhor à raça. No Brasil, temos a tendência de branquear as pessoas e a grande maioria dos mestiços se considera “moreno”, “claro” ou “branco”. Pra efeito de comparação, nos Estados Unidos, onde o movimento de igualdade racial é muito mais nervoso, basta ter um antepassado negro pra você se considerar negro. Não tem essa de “mulatinho”, “moreno claro” e o escambau.

...

Tem gente que ainda acha que a internet ainda é apenas um repositório de bobeirinhas inofensivas. Tem os alarmistas que pensam na rede como um grande hospício, cheio de criminosos perigosos. Eu fico num meio termo e acho que ela reflete mais ou menos as estruturas que temos “aqui fora”, nem muito melhor, nem muito pior. Por isso, tento levar para dentro dos jogos as mesmas regras de respeito e educação daqui.

[imagem: Universidade de Princeton]

relacionados


Comentários