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A arte da guerra, GoW e filosofia

28/03/2008 às 11:47

Comecei a jogar recentemente o famoso Gears of War para Xbox 360. Como o Rafael já fez uma análise da versão para pc, resolvi abordar um lado diferente do jogo. Neste artigo tentarei explicar o que fez com que o game fizesse tanto sucesso. Tente entender como uma guerra pode se tornar algo belo e o que há de filosófico por trás da quase extinção da raça humana.

Antes de expor meu ponto de vista, gostaria de salientar que sou totalmente contra a violência e em momento algum estou incentivando a prática da mesma. A opinião exposta neste texto está única e exclusivamente ligada a minha experiência com o jogo Gear of Wars e antes de dizer que jogos podem influenciar as pessoas a cometerem atos insensatos, tente imaginar minha linha de raciocínio através dos olhos de um gamer. Explicações feitas, vamos lá.

Enquanto jogava a campanha solitária de GoW, uma coisa me veio a mente. Como pode um jogo tão violente como a criação da Epic Games dar tanto prazer a um jogador? Estaríamos minimizando a violência? Seria realmente um jogador de videogame uma pessoa propícia a gostar de situações consideradas violentas?

Sinceramente acho que não. Gears of War é sim um jogo sem frescuras. Os soldados humanos são brutamontes, os alienígenas são gigantes, há tiros, há explosões, sangue, muito sangue, mas cá entre nós? Não passa de um videogame. Tudo que vemos na tela é ficção. Assim como Stallone ou Schwarzenegger em seus filmes mais famosos, Marcus Fenix é um troglodita que só sabe falar a lingua da pancadaria e quer saber? O mundo estava precisando de um herói deste calibre. Nós jogadores não podemos ficar esperando apenas uma nova aventura do Fantasma de Esparta para poder liberar um pouco de testosterona.

Não estou dizendo que gosto apenas de jogos cujo tema principal seja a violência, pelo contrário, adorei Okami, gostei muito de LocoRoco, idolatro o lado quase zen do inesquecível ICO, mas é bom participar de um tiroteio frenético de vez em quando. Além de não ver problema algum nisso, particularmente não me considero mais violento do que a maioria das pessoas que conheço.

Quem jogou Gears of War presenciou um mundo completamente devastado, com cidades em ruínas onde a cada esquina alguma ameaça aguarda à espreita. Embora o jogo seja recheado de momentos de tensão e carnificina, não é raro ouvirmos jogadores dizendo que o jogo é bonito. Bonito não, lindo! Aí devemos para para pensar. Como alguém pode achar um cenário pós-apocalíptico como este bonito? A resposta está na forma coletiva como pensamos.

Desde pequenos somos educados (quase doutrinados) a abominar este tipo de ambiente e não é comum nos sentirmos a vontade no meio de corpos, explosões e tiros. Mas onde quero chegar é que ali tudo não passa de uma mentira, ninguém morrerá de verdade, nenhuma bomba irá mutilar realmente o jogador e nenhum de nós sequer sairá sujo de sangue após algumas partidas.

Esta é a graça dos videogames e talvez por isso esta forma de entretenimento relativamente recente faz tanto sucesso. Onde mais poderíamos mudar o destino da humanidade tão facilmente quanto em um jogo e sem causar o mínimo transtorno, seja para quem for?

Gears of War é o típico caso de videogame onde podemos ser e viver algo que nunca seríamos capazes. Por alguns minutos, podemos matar, esquartejar, pular, cair, nos esconder e sem o mínimo sentimento de culpa. Jogos assim permitem que por alguns instantes nós voltemos milhares de anos na evolução humano e passemos a viver apenas em função de instintos, neste caso de sobrevivência, nem que seja de mentirinha.

Esta imersão se deve também pela forma como a história é contada. mesmo o jogo não tendo o enredo mais mirabolante já criado, a narrativa mantém a tensão nas alturas e certos momentos ficarão na memória do jogadores por muito tempo. Quem não se segurou na cadeira na parte onde o helicóptero dos humanos é abatido ou quando nos deparamos com o primeiro Berserker? (Só um detalhe, esses monstros são fêmeas!).

Há de se levar em consideração a ótima jogabilidade e a possibilidade de nos escondermos dos tiros inimigos, ação que foi brilhantemente implementada no jogo e que só ajuda a aumentar a sensação de realismo. Ver os personagens procurando abrigo e se esgueirando de um lado para o outro é fascinante e muitas vezes temos a sensação de que estamos presenciando um verdadeiro balé.

Situações assim é que me mantem jogando videogame até hoje. Mesmo com o alto preço dos jogos e consoles, mesmo com a falta de tempo, mesmo com os problemas do dia a dia...

Quanto a "beleza" encontrada nesta guerra, boa parte da culpa deve ser creditada aos designers do game. O trabalho realizado é algo absurdo. GoW é com certeza um dos mais belos jogos já lançados. Texturas belíssimas, animações acima da média, uma direção artística impecável e efeitos (principalmente de água, fogo e fumaça) de deixar qualquer um de queixo caído.

Para ilustrar um pouco esta qualidade visual, vou deixar aqui algumas páginas do belo livro presente na versão de colecionador do jogo. Para ver todas, basta clicar aqui.

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