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Encontro com Woz - A Palestra

04/09/2008 às 13:48

Dois livros, alguns episódios de séries, muitas músicas e oito horas de viagem depois, chego em Belo Horizonte para a palestra do Woz. Da rodoviária até o Palácio das Artes nem é longe, mas o trânsito estava complicado. Sou recebido pela simpática Paula, da Assessoria de Imprensa do Gestão do Futuro, que já está com meu crachá na mão. Me explica a agenda da noite, mostra onde está acontecendo o coquetel (isso é importante) e explica que infelizmente o Woz não terá como dar entrevistas, pois está preso a um contrato de exclusividade com a Época (não comprem, ficou uma droga).

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Presidente da BI Corporation

A boa notícia é que ele geralmente recebe quem quer falar com ele, no final do evento.

Me esperando por lá o Rafa Barbosa, que combinou via SMS que iria passar para dar um alô. Gente fina, e me ajudou a matar o tempo enquanto a noiva não chegava, atrasada como sempre.

Na hora da palestra, auditório lotado, centenas e centenas de sujeitos engravatados e mulheres com seus pretinhos básicos desfilando. Definitivamente um público que não combina com o Woz.

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olha a muvuca chique

Sentamos, como bons fanboys, em posição central, máquinas a postos, Nick Ellis tão afetado pelo Campo de Distorção da Realidade que achou que o iPhone tinha câmera fotográfica, e tentou registrar várias vezes o evento.

Tivemos uma execução do Hino Nacional, seguido de discursos do Presidente da BI Corporation, apresentações sobre os projetos, o Powerpoint básico sem o qual os executivos presentes teriam síndrome de abstinência, então, um pocket show dela:

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YESS Direto de Ipanema, Kátia Flávia!

Isso mesmo, Fernandinha Abreu, apresentando altíssimo grau de pegabilidade, mandando ver em um show de carioquidade que pareceu bem deslocado na terra do Leitão à Pururuca, mas tudo bem.

Depois dela, WOZ!

Ele entrou e já foi falando. Contou sua trajetória na Apple, detalhando a infância e os tempos de faculdade, quando parava de estudar para trabalhar por um ano e poder pagar a faculdade no ano seguinte. Woz contou como começou a gostar de eletrônica, projetando brinquedos como o gerador de interferência na TV.

Diz ele que um dia conseguiu fazer um sujeito ficar com um pé no ar e a mão na tela da TV, para conseguir uma imagem boa. Lembrou que cientistas faziam experimentos de condicionamento com ratos... "ali eu entendi como era aquilo".

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Ele contou como criou com os amigos nerds uma rede de comunicação no bairro, usando a rede elétrica para transmitir voz e funcionar de controle remoto, acendendo luzes nas casas uns dos outros. Também contou quando saiu o Pong, o primeiro videogame, e como ele achou genial, pois era algo que ele sabia exatamente como funcionava mas nunca tinha pensado.

Woz otimizou o Pong, reduziu pela metade a quantidade de chips. Jobs levou o protótipo pra Atari e conseguiu um emprego. Para Jobs.

Algo muito legal foi que Woz falou como um legítimo AntiStallman (não cobra pra tirar fotos, pra começar). Ele não tem rancor de ninguém, fala com carinho e admiração do Jobs, do Gates, do Mitch Kapor e de todos os pioneiros.

Ele conta que o sucesso da Apple foi terem divulgado todos os esquemas do Apple ][. A propriedade ainda era da Apple mas TODA a facilidade para criar periféricos e softwares estava ali. Isso rendeu milhares e milhares de empresas fazendo periféricos para o Apple ][. "Eles estavam fazendo propaganda de graça pra gente", disse Woz.

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Quanto a Jobs, impressionante. Cada vez que Steve Wozniak inventava algo interessante, a reação era: "Legal, vamos vender". Jobs era um nerd com bons conhecimentos de eletrônica, mas seu destaque mesmo era na área de vendas. Woz disse que Steve podia convencer qualquer um a comprar qualquer coisa.

Uma parte legal foi quando a Apple precisava de um BASIC com suporte a ponto flutuante. A Microsoft se aproximou e ofereceu o dela. A Apple topou, foi um excelente negócio, mas aí entra a VISÃO que diferencia os empresários comuns dos gênios. Bill Gates convenceu Jobs a fazer um contrato de 5 anos, ao invés de vender o software. Foi bem mais barato, e Jobs não achou que o Apple ][ ainda existira depois de 5 anos.

"A licença venceu a a Microsoft estava nos segurando pelos cojones", disse Woz.

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Woz falou de muitos casos que estão detalhados em sua biografia, iWoz, livro que não foi lançado no mercado brasileiro, que prefere editar obras fundamentais como "Jesus, o maior psicólogo que já existiu" e "as cinco pessoas que você encontra no céu".

Ele falou de como teve que lidar com falta de incentivo à curiosidade e inventividade, como as escolas NÃO prestigiavam alunos inteligentes e como mesmo nas empresas ao ser visto estudando e aprendendo era criticado por colegas que diziam que ele estava "roubando" da companhia ao usar computadores fora do horário de trabalho.

Tentou explicar para todos que esse tipo de gente vale Ouro, que não é só pagando bem que são mantidos, é dando um ambiente criativo e livre. É estimulando projetos pessoais, é não punindo quando o sujeito pensa "fora da caixa".

Acima de tudo Steve (eu posso) mostrou que o sujeito TEM que se divertir, tem que gostar do que está fazendo, tem que ter curiosidade. Ele fez questão de firmar bem a associação entre inventividade e humor. Se orgulhava de ter montado uma secretária eletrônica ilegal (era monopólio da AT&T) e disponibilizado um disque-piada. Serviu até para conhecer a primeira esposa. E se Roger Rabitt me ensinou algo, foi que mulheres gostam dos caras que as fazem rir.

O único objetivo dele na vida era se divertir criando máquinas legais que ajudassem as pessoas a se divertirem. Ele gosta de otimizar projetos, seu maior prazer era pegar um design e reduzir o número de chips sem perda de funcionalidade. Quando criou um protótipo do Breakout, ele otimizou o design original de Steve Jobs e reduziu em 50 chips. Infelizmente os engenheiros da Atari não conseguiram entender como ele havia feito aquilo e se declararam incapazes de reproduzir industrialmente o jogo. Acabaram com um modelo com 100 chips a mais.

Woz em momento algum fez o discurso de coitadinho que estamos acostumados no Brasil. Em vários momentos disse com todas as letras que ele era o melhor do mundo no que fazia. Na nossa mentalidade latina isso soa como arrogância, mas é apenas a constatação de um fato. Quando saiu o tal Altair, 5 anos antes ele já projetava aquele tipo de computador, mas achava desinteressante. Quando ele olhou em volta e viu que tinha ligado um terminal de vídeo com teclado, projetado por ele, a um microprocessador e criado um computador inteiro, ninguém tinha algo nem remotamente semelhante. Vai dizer o quê? Qualquer um faria? Não faria, tanto que não fizeram.

No caso da HP tendo primazia sobre os projetos, ele contou que o Apple I não foi rejeitado UMA vez, foi rejeitado CINCO vezes. Pior, ele queria que comprassem a idéia, queria ver todo mundo comprando Apples bons e baratos.

Foi uma palestra para engenheiros, para geeks, para os -como chamávamos antigamente- micreiros. Não para empresários. Ele não falou de técnicas de gestão, cauda longa, ROI, share-of-mind, Just-in-time, toyotismo (ainda existe isso?) e ISO. Ele falou da alegria de criar coisas legais e ver outras pessoas dizendo "nossa, que coisa legal". Ele falou da vontade de criar coisas que pessoas comuns possam usar, filosofia que a Apple mantém até hoje.

Steve Wozniak é um dos sujeitos mais de bem com a vida que já conheci. Não por ser rico, mas por ter feito todos esses anos apenas o que gosta, e se divertido cada minuto. ESSA é a verdadeira lição, Jovem Skywalker. Woz é a personificação da frase de Paulo Leminski, e ideal para terminar este texto: "Distraídos venceremos".

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