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Google Health inicia testes

21/02/2008 às 22:11

Um dos grandes problemas para médicos e profissionais de saúde (como eu) que tratam doenças que envolvem diagnóstico e tratamentos complexos é a dificuldade de reunir todos os dados referentes ao paciente e tratamento recebido.

A idéia do Google é facilitar (muito) esta tarefa, ao oferecer um sistema que centraliza informações do prontuário médico online, estando disponível para médicos que estejam envolvidos com o paciente, bem como familiares, se assim desejado. Em parceria com a Cleveland Clinic, estão disponibilizando prontuários de pacientes através do Google Health.

Normalmente, na universidade onde trabalho, temos ensaios clínicos para tratamentos experimentais para câncer. Para que possamos avaliar corretamente o paciente e a possibilidade de participação em algum dos ensaios clínicos ativos, precisamos das seguintes informações:
1) Dados referentes ao paciente, como exames de laboratório simples e recentes
2) Dados de exames mais complexos, como tomografias e PET scans. Precisamos inclusive das imagens, de preferência em formato digital
3) Dados do diagnóstico e tratamento, incluindo: resultados de exames anatomopatologicos e principalmente os detalhes sobre o(s) tratamento(s) recebido(s), como tipo de tratamento, drogas usadas, doses, toxicidade, resposta (ou não) ao tratamento e datas exatas de cada um destes eventos.

Como se pode ver acima, é uma quantidade imensa de dados necessária para que o oncologista possa fazer sua avaliação corretamente, e obviamente, o paciente raramente saberá todos estes detalhes, altamente técnicos. Em uma típica consulta que recebemos, o paciente traz no mínimo 100-200 páginas de relatórios médicos, relatórios de exames e 1-2 CDs contendo as imagens dos exames radiológicos realizados. Tendo a consulta a duração de 45-60 minutos (incluido o tempo necessário para ver todos estes dados), imaginem a dificuldade em poder completar a avaliação e dar uma resposta ao paciente na primeira consulta. Frequentemente, a resposta é: "não temos dados suficientes, precisamos de X, Y e Z, retorne semana que vem".

Agora imagine a situação, hipotética, que o mesmo paciente chegue, sem nenhum documento ou CD debaixo do braço, e simplesmente me permita acessar todas estas informações no Google Health. Além de estar tudo disponível imediatamente, tudo está de maneira estruturada e organizada. Isto permitiria uma qualidade de consulta muito superior, comigo tendo mais tempo para responder perguntas do paciente (e família), por exemplo, e pouca um (ou mais) retornos devido a dados insuficientes.

O grande (e talvez maior) problema é o de manter todos estes dados protegidos e disponíveis quando necessário. Outro problema significativo é garantir que estes dados sejam compartilháveis entre outros sistemas. Qual seria a melhor opção ?
1) O Google centraliza tudo, em um formato definido por eles
2) O Google centraliza, mas usa um formato aberto, definido por uma organização como a ISO
3) O armazenamento de dados é distribuído, em um formato como acima, com cada instituição responsável por manter seus dados disponíveis para o cliente, onde ser que ele esteja. Por exemplo, alguém em um hospital em São Paulo acessa diretamente os dados de exames obtidos em um hospital no Rio de Janeiro e Curitiba.

Todas as opções tem prós e contras. O Google Health esta usando um formato chamado Continuity of Care Protocol. Lidar com dados médicos é muito espinhoso, e é crítico que tudo funcione de acordo. Se eu fosse um médico no pronto socorro, não poderia pedir para o paciente voltar mais tarde: "sinto muito, senhor, mas os dados sobre sua doença não estão disponíveis, volte semana que vem, ok ?".

Acho que o Google está dando passos importantes para organizar dados médicos. Espero que eles de fato criem algo que seja bom e que seja adotado por um bom número de instituições. Somente testando algo assim poderemos avaliar os problemas, e se é razoável continuar neste caminho.

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