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Papo de bar

16/01/2008 às 16:39

Sujeito de meia-idade (aquela onde, na média da população masculina, os cabelos começam a rarear e é preciso comprar um carro esporte vermelho para compensar as coisas) encontra uma mocinha num bar. Repara que ela tem um chaveirinho no formato de um pinguim e pensa: "Oba! Dia de sorte! A menina é da comunidade... vou impressioná-la!". E vai:

"Oi, tudo bem? Vida longa e próspera!"

"Oi... mas isso você deveria dizer no final."

"Oi?"

"Nada."

"Então... você é da comunidade?"

"Moro em Ipanema..."

"Eu digo, da comunidade GNU/Linux®..."

"Ah... a gente aprende na faculdade..."

"Sabe... eu tenho anos de experiência nessa indústria vital e não entendo como a comunidade Linux se isola tanto do mercado, no Brasil. Eu brinco (meio a sério) que GNU/Linux® é tão irrelevante que quando aparece vaga de emprego sai até nos sites! Mas acho que fica difícil pensar grande (como uma CES ou uma MacWorld que aquele site... como é mesmo o nome?... cobriu) quando você considera pauta uma matéria que ensina a enviar torpedos SMS pela linha de comando."

"O site que o senhor está falando..."

"Que isso... senhor está no céu. Carvalho, prazer."

Ruborizada (mais pelo vinho): "Ah... oi... Flaviane... então... o site que você está falando não é aquele que está liderando o prêmio iBEST? Que vai dar umas camisetas pra quem votar e um jogo Half-Life 2? Gosto muito de lá... tem uns comentaristas toscos... chingam a gente..."

"Xingam."

"Hein?!"

"Nada."

"Então. É que o pessoal gosta de brincar de hacker... homem tem dessas coisas de auto-afirmação, né?"

O sujeito, escondendo a chave da Puma GTB vermelha recém-reformada: "É... pois é... mas isso de vez em quando me deixa meio irritado, porque atrasa a vida do próprio Linux."

"GNU/Linux®."

"É... ele nunca vai ser visto como uma alternativa séria se se resumir a Encontro de Software Livre com babação coletiva do Stallman."

"Ah... que saudade deu agora do FISL..."

"..."

"Adorei a cachoeira que tinha lá perto..."

"Você... já foi a um evento para desenvolvedores Microsoft?"

A menina leva a mão ao pescoço e aperta o crucifixo junto com a medalhinha de Santa Rita de Cássia e responde num fio de voz: "...não mas..."

"Ah, é isso! Só como exemplo, você já viu, de longe, algo parecido com uma MacWorld (que derrubou até o Engadget... derrubou até o servidor daquele site que está em primeiro lugar no iBEST, sorteando prêmios pra quem votar...) no mundo Linux? Ou então o Bill Gates, que "todo mundo odeia" segundo o pessoal do Pinguim, mas lotou um audittório pra 6 mil pessoas? CHEFE! Traz outra dose de Red Label!"

A menina, agora com a mão esquerda branca de tanto apertar o crucifixo e a medalhinha de Santa Rita e com a direita segurando firme, mas ainda dentro do bolso da jaqueta, o spray de pimenta: "... é, mas..."

"Hoje em dia era pras Novells e Red Hats e Mozillas da vida fazerem isso, mas eles não conseguem crescer, por falta de uma base que tenha saído da adolescência."

"Eu mal saí da adolescência..."

"É... mas..."

"Sabe... eu já fui algo muito próximo do que se chama de troll mas quem cresce, cresce, quem não cresce vira Stallman. Então é até triste e desconcertante ver um produto que você gosta sofrendo nas mãos dos freetards que acham que vão construir um mundo melhor assim. Mas é Darwin, e Darwin sempre tem razão. Se o GNU/Linux® tá aí até hoje é porque deve haver gente do lado racional da força que pensa de outra forma."

Os olhos triunfantes faiscavam atrás dos óculos redondos. Pediu outro guaraná diet e continuou:

"Tava vendo uma bibliografia básica pro meu TCC e achei o anuário do FISL do ano passado, e acredita que tem artigo falando de movimentos socialistas e a semelhança do modelo open source com tais movimentos políticos? Cacilda, tecnologia e política junto só dá merda, mas os caras não entendem."

"Tá no papo..."

"Oi?"

"Err... tá bom o papo..."

"Também estou adorando, tio. Difícil achar gente consciente assim... nem no BlogCamp. Aliás, aposto que o BlogCamp PR foi muito melhor e mais organizado que um desses encontros (se bem que a cachoeira era T-U-D-O). Pelo menos o pessoal não ficou tropeçando no OS e jogando comandos aleatórios no terminal pra configurar o acesso à internet via wireless."

"Foi bom você ter tocado no assunto de ter 'gente racional' na comunidade... tem, tanto que as Novells e Red Hats estão aí, mas é um caso onde os próprios fãs jogam contra. Depois reclamam que as empresas viram pra uma Microsoft da vida atrás de contratos decentes.

Eu cansei de ver fanboy defendendo que é perfeitamente natural você não contratar uma Microsoft, pois pode achar ajuda em fóruns e em IRC.

PQP. Quando meu Exchange morreu deixando a empresa inteira sem email, eu não podia chegar pro meu diretor dizendo 'olha, botei uma mensagem no
forum, estou no IRC esperando alguem me ajudar'. Ligamos pra MS, depois de 1h escalaram o problema pra Redmond, ficamos 2h com eles no telefone (detalhe: eles ligaram de lá pra cá) e descobriram que era uma condição estranha e raríssima na topologia que estávamos usando. Resultado? Compilaram uma DLL pra gente, mandaram por email, e em 3 horas o Exchange voltou a funcionar. Não posso te falar o nome da empresa" _tirando novamente a chave da Puma GTB vermelha recém-reformada do bolso_ "mas digamos que era uma das maiores do país, mais de 40 filiais, mais de 1000 usuários. No dia seguinte, ninguém nem suspeitou que algo havia dado errado. Eu não me assustei em nenhum momento. Se tivesse que depender de IRC, como ficaria?"

A menina, já soltando o spray de pimenta e o crucifixo: "Tudo bem, mas se você usasse o..."

"E outra coisa, essa geração nova, essa molecada que eu praticamente vi nascer... é uma geração que não tem Grandes Causas. Então se apegam a essa coisa
de software livre. Pombas, se soubessem o quanto é ridículo falar que software livre é fundamental, enquanto 2/3 do mundo estão tentando se matar... deviam ver O Senhor das Armas, ia dar uma visão melhor do que é o mundo."

"Ei! Eu sou dessa geração!"

Mas ele não ouviu... virou o copo: "Eu lembro de um texto no blog do Sérgio... como era mesmo? Esqueci o nome. De um encontro de Software Livre desses. Só conseguiram fazer WIFI funcionar no final do último dia. E não reclamou, achou apenas 'pitoresco'".

Nisso, chega um moleque que ele achou parecido com um skatista, piercing na língua, alguma coisa estranha no cabelo (seria tinta?) e diz: "Oi amor... desculpa, tava ajudando um amigo a fazer o pendrive funcionar no Slack..."

A menina agora era só sorrisos: "Tudo bem, paixão... vamos? Olha... foi muito bom conversar com o senhor. Tchauzinho, viu?"

"Garçom! Traz outra dose. Dupla!"

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