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Dragões não morrem fácil

Acompanhe a aventura da Dragon, cápsula da SpaceX, antes do acoplamento com a ISS.

03/03/2013 às 7:14

SpaceX-Dragon-capsule-by-NASA-Public-Domain

ATUALIZAÇÂO: Por uma ingresia do Windows Live Writer somente a 1a parte do texto subiu. Explicando, é uma versão romanceada dos problemas que a cápsula Dragon enfrentou no lançamento de sexta-feira. Spoiler: A história tem final feliz:

hadfielddragon

“Murphy era um astronauta”, pensou o comandante, enquanto observava uma centena de mostradores, monitorando os últimos segundos de propulsão do segundo estágio, a nave praticamente em órbita. os 445 mil newtons dos motores finalizando o trabalho dos 5 milhões de newtons do primeiro estágio.

Até ali o lançamento havia sido perfeito. Era cedo para pedir um chá, mas pela primeira vez o comandante se deu ao luxo de relaxar. À sua volta a tripulação trabalhava como um relógio, ou mais precisamente, como um time de relojoeiros, garantindo de o delicado mecanismo de milhares de peça que era a nave funcionasse corretamente.

Um movimento para a frente, não uma desaceleração, mas o fim de uma aceleração indicou que o segundo estágio havia encerrado seus 345 segundos de funcionamento. O já familiar (embora fosse apenas o segundo vôo da nave) sacolejar do estágio se soltando, rumo a sua queda em algum lugar do Atlântico foi bem-recebido pela tripulação, mas antes que pudessem comemorar, tudo deu errado.

“Alerta vermelho! Painéis solares não foram abertos! Baixa pressão nos sistemas de manobra!”

Em cascata as mensagens de alerta passavam pela tela do comandante, os engenheiros corriam em seus consoles tentando entender como de Jornada nas Estrelas seu lançamento havia virado Apollo 13.

“Calma!” – gritou o comandante. “Prioridades: Estamos em perigo imediato?”

Os tripulantes da ponte consultaram seus consoles, olharam uns para os outros e silenciosamente balançaram as cabeças. O imediato repassou a informação:

“Não senhor, a nave está respondendo, apensar dos alertas”

“Certo. então qual o principal problema?”

O engenheiro-chefe viu sua deixa e reportou:

“Senhor, os painéis solares não abriram. Sem eles só temos algumas horas de energia, se não conseguirmos abrir os painéis, ficaremos mortos no espaço, se me permite a expressão”

O navegador completou:

“É pior que isso, senhor. Precisamos dos propulsores para refinar nossa órbita. No momento estamos em uma trajetória elíptica que nos leva a pouco mais de 150 km de altitude, nesse ritmo o atrito com a atmosfera nos tirará de órbita em pouco mais de um dia.

Digitando furiosamente o engenheiro-chefe chamou a atenção de todos quando deu um soco em seu console, furioso e frustrado. “Maldição!”

“Algo que devamos saber, senhor O’Neil?” – o capitão sabia ser sarcástico quando era preciso

“Desculpe, capitão. Descobri o motivo dos painéis solares não abrirem, foi uma rotina de segurança automática, acionada quando os propulsores falharam.”

“Quais propulsores?”

“Esse é o problema, senhor. Todos eles. Os quatro conjuntos, espalhados em posições equidistantes da nave. Todos falharam ao mesmo tempo.”

Os projetistas haviam sido cuidadosos. Com os quatro conjuntos a nave podia bailar feito uma libélula no espaço. Três propulsores, idem. Com dois as manobras demorariam mais, mas ainda eram possíveis. Ninguém havia antecipado uma falha catastrófica nos quatro conjuntos ao mesmo tempo.

“YES!”

O grito de vitória do Alferes Johnson chamou a atenção do capitão e do engenheiro-chefe, que se preparava para repreendê-lo quando o jovem oficial deu a primeira boa notícia do dia:

“Capitão, Chefe, Acho que consegui. Temos quatro sistemas propulsores indicando baixa pressão de oxidante, o computador cortou o acesso a eles, mas um dos conjuntos ainda está operacional, consigo manualmente fazer com que ele seja acionado.

Girando a cadeira em direção ao piloto/navegador, o capitão perguntou:

“Podemos manobrar com um conjunto de propulsores apenas?”

“É complicado, senhor, a nave estará sendo movida por propulsores completamente fora do centro de gravidade, iremos induzir vários movimentos espúrios, e a manobra em si demorará muito mais. Mesmo assim, é viável. Posso tentar simular o processo, com os computadores em terra.”

“Faça isso”

A expressão do navegador mudou de esperançosa para curiosa, preocupada e em seguida frustrada, tudo isso em alguns segundos.

“Senhor, estou com problemas com nosso link com a Terra. Nossa conexão de dados está intermitente, falhando cada vez mais.”

O experiente astronauta percebeu a origem do problema frações de segundo depois de descrevê-lo.

“Capitão, estamos girando sem controle. Devagar mas o suficiente para que nossas antenas percam o alinhamento com as estações terrestres”

No meio da confusão ninguém havia percebido o giro de poucos graus por segundo, e ao contrário do que prometia a ficção científica, janelas em espaçonaves não são realmente úteis exceto para turismo, todo o trabalho era feito com monitores e ninguém havia pensado em… olhar pra fora.

Lembrando das aulas de física básica, o capitão teve uma idéia:

“Senhor O’Neil, use um comando de prioridade e abra os painéis solares”

Sem entender o motivo, o engenheiro-chefe sobrepujou a rotina de segurança criada para proteger os painéis no caso de falha nos propulsores. Primeiro um depois outro painel se estendeu nas laterais da nave, asas nada aerodinâmicas, mas fontes da essencial energia elétrica, que imediatamente fluiu pela nave, recarregando as baterias e eliminando o risco de uma “pane seca”.

“Capitão, estamos parando de girar, nossa rotação está bem menor!”

Silenciosamente o capitão agradeceu a seu velho professor de física, falecido décadas atrás, que ensinava conceitos básicos de forma tão entusiasmada. Ele nunca havia esquecido a lição sobre conservação de momento angular, quando o professor mostrou bailarinas de braços abertos girando, então fechando os braços em torno do corpo e ganhando muito mais velocidade.

Ao abrir os painéis da nave ele havia alterado a configuração inercial do conjunto igual a uma bailarina diminuindo sua rotação abrindo os braços.

Foi uma vitória pequena, mas o suficiente para salvar a moral da tripulação.

“Idéias, quer idéias! O que aconteceu com os propulsores?”

“Segundo minhas leituras” – disse o engenheiro-chefe – “temos uma válvula travada no circuito de Tetróxido de Nitrogênio, ou então houve um congelamento nas tubulações.”

“Soluções?”

“Podemos reiniciar as bombas, talvez o sistema libere a válvula travada, se for o caso”

“Execute”

Ao contrário dos tempos da Apollo os comandos eram todos digitados em um console. Nada de milhares de chaves e interruptores nas paredes. Toda a magia era oculta em Silício.

“Nada, senhor, sugiro tentarmos um esquema de sobrepressão”

“Como assim? E as especificações? Não podemos forçar o sistema” – disse o jovem Alferes Johnson, mostrando que ainda era um recém-chegado da faculdade.

“Relaxe, Alferes. Todo engenheiro que se preza desenha seus projetos para suportarem bem mais que os limites estruturais da especificação. É uma longa tradição, chamada por alguns de “fator de encagaçamento”.

“mas”

“De qualquer jeito, nós não vamos exceder os limites da tubulação, vamos apenas forçar a pressão acima do ponto normal, em pulsos rápidos. Se houver gelo ou uma válvula presa, isso resolverá o problema.

“Só um momento, chefe”

O navegador virou para encarar o capitão, cruzando os braços e abrindo um sorriso:

“Manobra de correção orbital finalizada, comandante! Mesmo com um conjunto de propulsores consegui nos colocar em órbita estável, podemos ficar um mês por aqui, se necessário”

“Espero que não levemos tanto tempo, mas mesmo assim excelente trabalho. Engenheiro, execute o procedimento de liberação da válvula”

Uma rotina escrita às pressas, aprovada por alguns engenheiros a bordo e uns tantos outros em Terra foi executada. Aos poucos a pressão começou a subir nos conjuntos propulsores. A tripulação leu a expressão de alívio no rosto do engenheiro, gritos de alegria espalhavam a notícia por toda a nave. A missão não seria um fracasso, afinal.

“Temos dois conjuntos propulsores funcionando, outros dois desabilitados mas nominais, logo vamos testá-los e colocar tudo funcionando.”

Com um suspiro de alívio o comandante fechou os olhos por um momento, fazendo um agradecimento silencioso à Santíssima Trindade do vôo espacial – Newton, Einstein e Kepler. Levantando-se, com a idéia fica de ir até o refeitório buscar um café, ele se lembrou de um último comando, antes que a porta do elevador se fechasse:

“Oficial de Comunicações, informa estação que vamos nos atrasar, mas domingo pela manhã estaremos chegando. Diga ao Comandante Hadfield que a manteiga de amendoim dele está garantida!”

Essa é a versão romanceada, mas em essência a sequência de acontecimentos foi exatamente a mesma. Neste momento a Dragon está sendo capturada pelo braço robótico da estação Espacial, atrasada mas cumprindo sua missão.

O susto de ontem valeu para lembrar que não existe rotina em exploração espacial.

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