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Tratando doenças incuráveis. Uns chamam milagre, outros, reprogramar o firmware.

18/11/2012 às 11:24

dna A Deficiência de Lipase Lipoprotéica, ou hipertrigliceridemia é uma doença grave. O corpo não consegue metabolizar corretamente gorduras, por falta de uma enzima. Isso deixa o paciente com uma dosagem altíssima de triglicerídeos, entre outros compostos. O quadro pode ser de de dor abdominal aguda, com o tempo evoluindo pra pancreatite grave, e até aterosclerose.

A hipertrigliceridemia é incurável e hereditária. Não é uma sentença de morte, mas é uma sentença de vida mais curta, tendo o paciente que viver com dieta de restrição absoluta de gorduras. Felizmente, afeta apenas 1 em cada milhão de pessoas. Quer dizer, felizmente para quem não é esse 1.

Como doença genética, não há o que fazer. O próprio DNA do paciente é defeituoso. Ele traz em cada uma de suas células uma mutação, um bug no gene que codifica a Lipase Lipoprotéica. Consertar isso seria de uma arrogância suprema; estaríamos alterando o Código da Vida, rindo na cara do Universo e dizendo “Foi mal, Entropia, aqui você pisou na bola. Vou mostrar como se faz”.

Felizmente cientistas têm essa arrogância. Um grupo de um laboratório chamado UniQure reprogramou um vírus inofensivo com afinidade por células musculares para que ele adicionasse ao DNA dessas células a sequência genética da Lipase Lipoprotéica.

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O Vírus foi inoculado em 27 pacientes com hipertrigliceridemia. Depois de períodos entre 3 e 12 semanas praticamente todos apresentaram uma significativa queda nos índices de gordura no sangue. Os que tinham quadros ocasionais de pancreatite tiveram esses quadros dramaticamente reduzidos. Depois de 52 semanas os pacientes ainda mostravam índices excelentes de triglicerídeos, indicando que a modificação genética havia sido permanente.

Ah sim: Isso tudo com uma única inoculação. Não é um tratamento permanente. É um patch.

Batizado de Glybera, o tratamento foi aprovado em caráter excepcional pela União Europeia, é a primeira terapia genética comercial, não sendo mais um estudo restrito. Agora a empresa se prepara para conseguir aprovação nos mercados americano e canadense.

Não há nenhuma especificação do custo, que deve ser bem alto, como toda tecnologia nova, mas inevitavelmente irá baixar, para sorte de um garotinho que em 2010 foi identificado como o primeiro caso brasileiro de hipertrigliceridemia de origem genética. Esse moleque nasceu com a doença errada mas na época certa. graças a um grupo de cientistas que assim como Sarah Connor não acreditam em Destino, ele poderá comer uma picanha caprichada na graxa, sem colocar a vida em risco.

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Em Jornada nas Estrelas a medicina do Século XXIII do Dr McCoy curou insuficiência renal com uma pílula. Na vida real a medicina do Século XXI cura uma doença genética séria com uma injeção. Acho até que estamos nos saindo bem.

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