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Lembro de quando os games me deixavam com raiva

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Jogos, como outras formas de arte (defendo constantemente a concepção de que games são um meio artístico) costumam produzir diversas emoções. Empolgação é evidentemente a mais predominante, e esta começa às vezes antes mesmo de começar a jogar o game.

Eu estive no lançamento à meia noite de GTA 4, há quase quatro anos (preciso retornar a esse hábito, aliás: é um evento divertido de fazer parte), e a excitação da fila quilométrica às portas da loja era tão notável quanto a total ausência de mulheres.

Ok, total é um termo forte (afinal, minha mulher estava lá, e se você percorresse a extensão inteira da fila dava para esbarrar em uma ou outra menina também), mas a proporção de mulheres não chegava nem a 1% do total de malucos encarando o frio de 5 graus para serem os primeiros a jogarem Grand Theft Auto 4.

Jogos como Burnout Takedown, por exemplo (até hoje o meu favorito da série), conseguiam com um misto de velocidade estonteante e trilha sonora perfeitamente adequada ao gameplay causar um tipo de empolgação que eu me sinto quase fisicamente incapaz de sentir em situações da vida real.

Games causam medo, também. Títulos como Siren ou o mais recente (e absurdamente excelente) Amnesia conseguem, talvez por me colocarem como protagonista da história em vez de apenas um maluco berrando “sai daí, cara! O assassino está escondido atrás da geladeira!!!” em direção aos atores indiferentes na tela da minha TV, arrancar sustos que exigem a cuidadosa verificação das cuecas.

Como já mencionei aqui no TB, alguns jogos chegam até a fazer com que os mais másculos canais lacrimais lubrifiquem seus olhos involuntariamente. Aquela cena de Gears of War 2 é o melhor exemplo pra mim, que tive que esperar que as lágrimas evaporarem pra que minha mulher que estava sentada do meu ado não me flagrasse enxugando-os.

E principalmente, games produzem raiva. Muita raiva, às vezes, o que gera tantas anedotas em relação a controles voadores com trajetória em direção a paredes e/ou irmãos menores.

Um dos meus primeiros casos de frustração que pouco a pouco se transformou em fúria assassina aconteceu em Full Throttle.

Se você jogou Full Throttle, você deve lembrar claramente deste trecho do jogo. Se você não jogou Full Throttle, a única explicação para que você se encontre neste artigo é ter feito uma curva errada numa pesquisa do Google.

Nessa altura do game, o protagonista Ben precisa entrar num ferro velho. Há uma corrente que ergue o portão, mas assim que o motoqueiro a solta, o portão fecha de novo, o que é um excelente sistema de segurança caso a população da cidade seja de apenas duas pessoas (onde uma delas é o dono do ferro velho).

Mais cedo no jogo, você adquire um cadeado. E a solução era trancar o portão com o cadeado, permitindo ao Ben escalar o muro usando a corrente que agora está inerte.

Esta simples informação que eu acabo de te dar (e que você provavelmente já conhece) teria me poupado noites em claro na frente do Pentium 133 do meu pai, tentando de toda forma ganhar acesso ao maldito ferro velho. Eu sou um fã absurdo de joguinhos point and click adventure, mas é inegável que alguns puzzles desses games são torturas mentais.

Esse tipo de jogo geralmente tem apenas uma solução pra cada um dos quebra-cabeças, e acha-la às vezes requer que você pense exatamente como os programadores do jogo pensaram (o que é um pouquinho mais enlouquecedor que o outro método, uma interminável sequência de tentativa e erro que pode em casos extremos extinguir a sua paixão por um jogo).

Outro jogo que me causou revolta homicida foi o James Bond Jr do Super Nintendo, baseado no desenho animado de mesmo nome sem sentido (o tal James Bond Junior era o sobrinho do famoso agente secreto, o que torna o “Junior” completamente inexplicável, ou então James Bond deve algumas explicações pro seu irmão).

O trecho em questão aparece aos 16 minutos deste speedrun:

Como você pode ver, neste momento do jogo o James Bond Junior se vê diante de uma espécie de escada de gelo cheia de espinhos. No speedrun, feito por um sujeito mais inteligente do que eu era quando tinha 12 anos, o protagonista voa facilmente por cima dos espinhos usando o botão Y pra ativar o powerup de sapatilha a la Homem de Ferro.

Acredite se puder, eu morri incontáveis vezes tentando correr por cima dos espinhos antes de perecer por causa do dano provocado por eles. O powerup do sapato-foguete era exclusivo a essa fase, e portanto eu nunca havia usado-o antes e não havia uma indicação clara sobre como ele funcionava. Ok, não posso culpar nada senão a minha própria burrice característica de tias velhas diantes de um problema eletrônico.

Deixa eu explicar: nós, a criançada que cresceu com computadores, adotamos rapidamente a doutrina do Capitão Boeing no que diz respeito a eletrônicos: “na dúvida, aperte todos os botões”. Boa parte de nós aprendeu a mexer em computadores fuçando os dos nossos pais (frequentemente os destruindo no processo); nossas tias e avós, por outro lado, se sentem intimidadas e na dúvida preferem não fazer nada com medo de danificar a máquina.

Essa não era geralmente a minha postura, mas por motivos que eu jamais conseguirei explicar naquela fase de James Bond Junior, a ideia de apertar todos os botões do controle só cruzou minha mente quando eu já estava praticamente espumando de raiva do maldito jogo e convencido meu irmão que o jogo tá com defeito e é “inzerável”.

Eu penso que a frustração com videogame é uma relíquia do passado (e que, embora, fosse de esbravejar de ódio às vezes, fazia parte da experiência). Vivemos numa era de checkpoints, de save states, de continues infinitos (aliás, por causa disso o termo “continue” até caiu em desuso), de soldados que recuperam life através da mágica de ficarem parados atrás de uma pilastra e esperar alguns segundos. Como se não bastasse essa geração de games que seguram a sua mão e te ajudam a atravessar a rua, a onipresença da internet faz com que qualquer desafio esteja a menos de uma googleada de distância.

Ou você vai me dizer que ainda se frustra com games atuais como se frustrava antigamente?

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Sílvio Pereira Filho
No The Dig, eu só consegui montar o esqueleto da tartaruga depois que liguei para um amigo do meu pai, o mesmo que falou desse jogo para mim.
@GamerCaduco
Izzy, ótimo texto! Dificilmente vc encontra um jogo que te frustra assim ou te faz passar raiva nos dias atuais. Aliás, hj em dia vc se revolta é quando encontra um bug/glitch no jogo que te mata ou te impede de procedir de alguma maneira. Apesar que ainda existem jogos que incomodam, como New Super Mario Bros Wii ou Sonic Generations (as fases clássicas), onde vc erra um pulo, demora demais ou aperta botão errado (e por aí vai) e isso resulta numa morte, ou vc deixa de pegar algum item ou até mesmo deixa de fazer um caminho melhor. Acho que os jogos que possuem esse apelo mais "old school" tem mais chances de te irritar dessa forma. E, em alguns deles, sempre tem alguma coisa que te dá a dica ali no momento, um tutorial ou qualquer outra coisa. De qualquer forma, as coisas escondidas são facilmente descobertas com "googladas" ou "youtubadas". Cabe ao gamer encarar pra valer esses desafios sem apelar para esse tipo de solução. Enfim, estamos ficando velhos, meu caro. São outros tempos, feliz e infelizmente, já que cada um tem suas qualidades e seus defeitos.
Arnaldo Netto
Cara eu raramente paro para ler um texto grande como esse. E mais raramente ainda eu paro para comenta-los. Mas hoje nao resisti. O texto está otimo. Faz a gente se sentir na sua pele. Quem nunca viveu uma situação dessas que voce descreveu? Puts... Muito bom. Dei varias risadas lendo o texto. Pura nostalgia misturada com humor e ironia. Gostei muito. Parabens.
Henrique
"Inzerável" foi demais! rs Mas é verdade, a comparação com fases de jogos antigos em que vc ficava horas travado tentando várias possibilidades é bem diferente do padrão "Google resolve" atual...fazer o que, é a evolução!
Jonathan Gangi
Sim Coaster, tenho raiva até hoje desse jogo. Após horas e horas de save, liberando os temas da invenção, gelo e deserto, em uma das missões finais no tema do deserto o jogo simplesmente trava por segfault e volta pro windows com a mensagem "game.exe encontrou um problema e precisa ser fechado". Nunca zerei o jogo por conta desse bug
Helvio Mota
Ééééé... Full Throttle me consumiu/divertiu por dias a fio. Deu até vontade de jogar de novo. Lembro da história de usar os coelhinhos pra passar num campo minado. Chorei de rir com a "Cavalgada das Valquírias" que toca quando os coelhinhos saem da caixa.
JP
Essa fase pra mim aconteceu em Indiana Jones and The Fate Of Atlantis que eu comprei por uma fortuna, original em disquetão de 5 1/4. Naquela época eu tinha a certeza de que ninguém mais tinha aquele jogo. Não havia internet pra ajudar, o jogo só apareceu nas revistas especializadas brasileiras em muitos meses depois que eu já tinha acabado o jogo. Sei que meu telefone virou hot-line de ajuda pro jogo quando emprestei os disquetes pros meus amigos. No começo do jogo você tinha que sair por um duto escorregadio e tinha que colar chicletes nos pés pra não escorregar. Lembro de ficar um longo tempo tentando descobrir isso entre outras milhões de coisas muito mais imprevisíveis que essa. Me pegava pensando na solução do que fazer quando estava no colégio e tentando depois de chegar em casa. Sinto falta dos Adventures, mas não sei se hoje em dia tenho a paciencia ou se o gênero está desgastado mesmo.
@feeapple
E quem nunca passou raiva jogando Myst?
eltiene
Realmente muitos games antigamente me faziam roer as unhas e querer quebrar tudo mas teve alguns games da era ps1 e ps2 que me fizeram sentir extrema raiva, ja que prefiro largar o jogo e tentar em outro seculo do que necessariamente ir da uma googleada acho que perde a magia do jogo. mas que a tentação e grande isso eh
Teko
Me lembro de um jogo chamado Tales of Eternia que o personagem principal era chamado Reid. Tem uma hora que ele aprende 3 poderes, 2 poderes você podia usar de cara e outro só pra batalha final, que ressuscitava os aliados e acabava com o chefão, que perto da morte matava todo mundo. O problema é que eu não sabia quando usar esse poder, e eu tive que usar itens pra ressuscitar o povo e matar o sujeito na mão grande. Pense na consumição.
Guilherme
Exatamente!!!!!! Como tenho apenas o Xbox, joguei apenas o Dark Souls, e caramba que jogo!!!!! Cada chefe era uma vitoria animal, e a melhor coisa é jogar sem buscar nenhuma ajuda externa, apenas quebrar a cabeca jogando hehe
Gabriela
Passei muita raiva com Monkey Island 3, quando tinha uns 6 anos, tentando ler as legendas super-rápidas e adivinhando que, cara, era só dar uma flor com xarope para a cobra te cuspir. Foram dias nessa parte, acredite.
Leonardo Santos
Eu Joguei
Leonardo Santos
Não é bem assim eu nunca joguei Full Throttle.. mas não foi pq nao tive infância e sim pq meu PC nao aguentava o jogo... Porém Joguei muito Monkey Island, Day of Tantacle, dentre outros... jgos assim não existem mais... hoje está tudo muito fácil.... Vide WOW quando um chefe está dificil demais (demais eu falo os jogadores penam em matar) os programadores NERFAM (enfraquecem).. Ta tudo muito fácil, o prazer de zerar o jogo, de falar eu terminei, a sensação de vitória ou de raiva ao descobrir como passar da fase não existe mais. É uma pena.
@AntonioVeras
Eu nunca consegui zerar o Mega Man 1.
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