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Jogos baseados em tragédias reais

11 de Setembro e o Massacre de Columbine inspiraram jogos controversos.

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Fala-se muito sobre o suposto efeito dos jogos violentos sobre os gamers. Sempre que acontece qualquer tipo de tragédia envolvendo gente jovem e armas e/ou explosivos — tema de outro artigo meu aqui no Tecnoblog, aliás —, a mídia jornalística sai procurando conexões com videogames, e inevitavelmente surgem manchetes relacionando o incidente com games. Quantas vezes já lemos chamadas em sites noticiosos com dizeres como “Autor do atentado passava seu tempo com jogos de tiro, diz a polícia”?

É tão inevitável que, quando tais matérias começam a pipocar após um acontecimento do tipo, os gamers coletivamente pensam “bem que estava demorando!”. Já virou um clichê que atesta sobre a natureza sensacionalista da indústria jornalística. Por isso, já estamos acostumados a demonizarem nosso hobby.

Entretanto, fala-se bem pouco sobre o fenômeno inverso. Em vez da tênue insinuação que games inspiram catástrofes, acontece às vezes que tragédias reais viram games.

JFK Reloaded

O assassinato do presidente americano John F. Kennedy — apesar de oficialmente solucionado — gera até hoje incerteza. A Comissão Warren determinou que o atentado foi executado por um sujeito apenas; já o pessoal mais chegado em teorias conspiratórias afirma que a trajetória da bala e a frequência entre os tiros torna impossível que apenas uma pessoa tenha, usando terminologia de delegado, “efetuado os disparos”.

E a empresa escocesa Traffic Games (que parece ter sumido do mapa) resolveu capitalizar em cima disso lançando um simulador baseado no incidente em 2004.

No game, você é Lee Harvey Oswald, o acusado de matar o presidente Kennedy. Você se encontra no mesmo prédio de onde Oswald teria atirado contra o presidente, e lá embaixo passa o comboio presidencial. É objetivo é tentar reproduzir a sequência de eventos daquele dia.


(Vídeo do YouTube)

O game até oferece uma análise balística tridimensional dos seus disparos, e dá pontuação correspondente.

Os americanos mostraram que ainda não passou tempo suficiente desde a morte do presidente Kennedy, porque o game foi recebido com bastante consternação. Os desenvolvedores defenderam a iniciativa como uma espécie de “perícia forense em grupo”.

New York Defender

Os valores de produção de JFK Reloaded — os gráficos parecem sim datados, mas leve em consideração que o jogo é de 2004 — permitem aos desenvolvedores se defenderem com a tal premissa de que o jogo é na realidade um exercício investigativo em conjunto. Afinal de contas, o game recebeu um tratamento realmente profissional, não é apenas uma tentativa barata de chocar usando o tema trágico e com isso atrair alguma atenção.

New York Defender… Bem, digamos que a mesma defesa não se aplica a este jogo. Apesar de haver também teorias conspiratórias a respeito dos atentados do 11 de Setembro, New York Defender não tem proposta de esclarecer os fatos relatados na versão oficial do incidente.

O game é essencialmente um clone de Missile Command com o World Trade Center no meio. Tudo que você tem que fazer é atirar nos aviões em direção às torres, impedindo que elas derrubem os dois prédios. E é isso.

Como se a controvérsia do jogo não fosse suficiente (o game chegou a aparecer em jornais americanos), alguém se deu ao trabalho de fazer uma continuação.

Super Columbine Massacre RPG!

O massacre na escola de Columbine, em 1999, foi um dos mais infames incidentes de tiroteio em escolas norte-americanas. As investigações sobre os dois atiradores, Eric Harris e Dylan Klebold, revelaram que ambos eram gamers (Harris era membro de comunidades de criações de fases para FPS como Doom e Quake). Este foi um dos mais significantes eventos em que videogames (entre outras coisas, como o estilo musical e filmes favoritos dos dois garotos) foram culpados por violência no mundo real.

Em 2005, seis anos após os eventos de Columbine, o cineasta Danny Ledonne (com 23 anos na época) criou Super Columbine Massacre RPG!, um jogo nos moldes dos clássicos RPGs japoneses de 16 bits. Minha familiaridade com o icônico RPG Maker me fez concluir, antes mesmo de iniciar minha pesquisa sobre o assunto, que essa foi a ferramenta usada por Ledonne pra criar o game.

E realmente foi o caso. Ledonne, que não tem nenhum treinamento formal em programação ou design de games, desenvolveu Super Columbine Massacre RPG usando o mesmo RPG Maker que você leitor, assim como eu, talvez tenha brincado tentando criar um jogo baseado nos seus amigos de escola ou de fórum na internet.

Ledonne, que é gamer, criou o RPG numa tentatia de adereçar a polêmica sobre jogos violentos terem tido um papel na inspiração do massacre. O fato de que ele fez isso usando um jogo violento pareceu para muitos uma tentativa de chocar o público mainstream.

Um dos problemas do jogo é que, sendo seu criador um defensor da causa gamer, algumas decisões do roteiro tornam o game facilmente mal interpretado. O jogo satiriza a forma como a mídia criticou videogames colocando esse discurso na boca de personagens que são obviamente os “vilões” da história. Esse antagonismo (e o fato de que os protagonistas do jogo são justamente os assassinos de inúmeros inocentes) torna a ideia central do jogo um pouco confusa. Não é difícil entender porque muitos acharam que o jogo glorificava as ações da dupla de estudantes.

Debater a polêmica da violência provocada por jogos através de um jogo é um exercício curioso de metalinguagem; é uma pena que a tarefa não foi abordada por alguém com mais tato.

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Guilherme Macedo C.
Não, não está. O que está acontecendo é resultado da democracia, onde as pessoas podem debater e ver efeitos sociais de certas atitudes. Aceitar passivamente tudo não é "liberdade de expressão". Liberdade de expressão está sendo feita quando muitos protestam quando um comediante fala que mulheres deveriam agradecer por serem estupradas. Aceitar passivamente tudo é jogar no lixo a própria liberdade.
Guilherme Macedo C.
bawlaw, mas a questão é que os temas abordados não são em relação a pontos de vistas. Desde qdo matar um presidente é questão de ponto de vista? Desde quando assassinas alunos em uma escola é questão de ponto de vista? Até na Segunda Guerra, como foi citado, não acontece "polêmicas" qdo se trata de questões nacionais, tanto que Cartas de Iwo Jima foi aclamado pela crítica e pelo público, o que não aconteceria se fosse em mortes aleatórias de pessoas, como se isso fosse algo pra se aceitar.
Diones Reis
Um game que poderia entrar nesta lista, é um jogo chamado "Darfur is Dying". É um game em flash, e que quer passar através do gameplay, a situação dos refugiados em Darfur, causado pela Conflito em Dafur, Sudão. Para maiores informações sobre o game. http://en.wikipedia.org/wiki/Darfur_is_Dying
Vinicius Kinas
Mas então você acha que o mundo não está passando por uma onda de politicamente correto ao extremo? Nos dias de hoje, nem Chaves é politicamente correto. P.S.: Na minha opinião, a liberdade de expressão deveria sim ser irrestrita, sem excessões à regra. Mas contudo entretanto porém, aplicaria-se a lei em vigor para quem fizesse discursos de ódio, incitação à violência ou apologia ao crime.
bawlaw
http://www.motifake.com/image/demotivational-poster/1004/the-90s-looney-tunes-is-the-uncontested-king-demotivational-poster-1270518776.jpg não é que tudo tem que ser liberado, mas não se pode entrar numa paranóia com coisas simples. hoje os desenhos infantis são tudo ums bonecos alienigenas com uma televisao na barriga e que repetem 50 vezes a mesma coisa. sou de 90, e não tive problemas psicológicos e não estou traumatizado por causa de desenhos e jogos "violentos". a violencia infelizmente é da natureza humana e nada impede dela aparecer. se a mídia não falar, simplesmente só deixaremos de saber que ela existe. O "aumento" de violencia que vemos hoje, é fruto da maior quantidade de informações que recebemos. ela sempre existiu mas agora sabemos dela em tempo real.
bawlaw
Guilherme Macedo voce está falando como se o eixo só estivesse na segunda guerra só para matar judeus. a 2ª guerra nao foi só o holocausto. existiram diversos massacres que os americanos causaram.. mas isso não é discutido. crie um jogo que voce é um japones e tem que matar americanos para defender 2 cidades de 2 bombas nucleares para ver no que vai dar..
Guilherme Macedo C.
Agora a moda é dizer que tudo é "politicamente chato" e que tudo deve ser liberado, tudo deve ser um estado de natureza hobbesiano.
Guilherme Macedo C.
Alguém acha que os Nazistas estavam certos ou a Segunda Guerra é só uma questão de ponto de vista? O_O
bawlaw
falou tudo!, só atingem os americanos..
Gustavo
O resto do mundo pode ser atingido, mas os americanos, necas...
Rodrigo Cardoso
Reparem q todos os jogos citados na reportagem atingem os norte-americanos...
Rodrigo
Acho que a questão não é nem o tempo entre o jogo e o ocorrido, como eu disse ali em cima, se lançarem um jogo hoje onde vc joga com os nazistas e tem que matar judeus, tipo um Manhunt onde vc é um nazista e mata judeus cruelmente, o jogo vai gerar controversas, vai ser proibido em um monte de lugar, vai ter um mundo de gente falando que isso vai incentivar os jovens a fazerem ou se tornarem um monte de coisa.
Vinicius Kinas
Essa história dos jogos influenciarem as decisões é pura balela, e eu não entendo como continua aparecendo. Qualquer estatístico pode mostrar que dos milhões de pessoas que jogam determinado jogo, apenas alguns gatos pingados - que muitas vezes têm algum outro tipo de trauma e/ou condição psicológica - são os que saem em "rampage", cometendo atrocidades. Claro que existe a possibilidade do jogo servir como um gatilho para a pessoa que fez/fará o atentado, mas é como dizer que o álcool nos torna assassinos, não a predisposição à esse tipo de ato. Sobre os jogos com tragédias, normalmente eles geram controvérsias pois as tragédias ainda estão "cicatrizando" em muitas pessoas. Não houve tempo para uma troca de geração, como é o caso dos jogos com a temática da segunda guerra, por exemplo.
@bdourado
Podiam fazer um game sobre conspirações, usando histórias reais, como a do JFK, Rosweel 47 e muitos outros conspirações que alimentam a mente de muitos
marcoscs
ai, ai, esses papagaios repetidores do politicamente correto e suas asneiras... ninguem merece...
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