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A balada antes e depois das redes sociais

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Como um adolescente comemorava seu aniversário no início dos anos 90, e como faz 20 anos depois?

Início dos anos 90

A patota se reuniu no intervalo de aula, após cada um pensar em lugares bacanas para comemorar o anversário do Juca. Foi complicado chegar a um consenso. Além de duros, como qualquer adolescente, a mesada estava mais do que racionada depois que o governo confiscou a poupança de todo mundo. Foi preciso escolher uma lanchonete boa e barata e uma balada com o mínimo de consumação.

Com muito sacrifício, a turma fez uma vaquinha para presentar o amigo: uma camisa com a banda favorita do aniversariante e uma fita cassete customizada com hits selecionados. Não foi fácil conseguir tantos LPs e fitas emprestados, mas deu certo; com um pouco de empenho do colega mais entendido em microsystems e double decks, nasceu a fita com faixas personalizadas.

Depois do lanche, a turma se reuniu rumo à casa noturna. Lá que viria a grande surpresa: os colegas de colégio estariam todos lá, aguardando. Até a Aninha, a menina que o aniversariante estava a fim, topou comparecer. Será que ia rolar alguma coisa?

Foi uma farra. Todos beberam, dançaram até não aguentar mais, contaram histórias, riram muito.

Ok, a ficada não aconteceu. Mas a Aninha não só apareceu como ainda trocou algumas frases com o aniversariante… Uma vitória e tanto! E, colírio dos colírios, assistiu a bela dançar a festa toda.

20 anos depois

Depois de trocar alguns torpedos e mensagens no Facebook durante a aula, a galera se reúne na saída para discutir qual balada seria a melhor para passar o aniversário do Pedro, ou melhor, Beowulf77 — só a família o chama pelo diminutivo de seu nome de batismo. Não houve consenso: cada um escolheu sua balada baseando-se nas arrobas que costumavam frequentar, e pelos “curtir” no Facebook. Enfim, foi decidido que se que se daria uma passada em cada uma delas para ver o que estava rolando, e, dependendo do clima, ficar ou não.

Ninguém comprou presente. Todos viram no Twitter que o próprio Beowulf77 acabou de se presentear com o último iPhone, parcelado em 10 vezes. Ele estava feliz da vida, afinal, só faltava uma parcela para quitar o smartphone anterior, já demasiadamente defasado.

Depois de alguma discussão, decidiram ir primeiro na balada de uma super arroba, que deveria estar bombando, afinal, ele é uma webcelebridade. E estava mesmo, até demais: casa cheia, cerveja morna e música ruim. Mas demoraram para perceber isso, pois passaram um bom tempo tentando fazer check-in no Foursquare, já que o 3G mal pegava lá dentro. Um dos membros da turma ficou revoltado com o nível da festa:

— Caramba, orkutizaram a balada! Vamos para outra.

Contudo, antes de partir, um feito fez o primeiro destino valer a pena: encontraram duas webgostosas populares no Twitter, fizeram fotos ao lado das moças e imediatamente postaram em todas as redes sociais, para os seguidores morrerem de inveja. É bem verdade que também tentaram encontrar a super arroba que organizou a festa, mas ninguém sabia como ele era na vida real. Afinal, seu avatar era um personagem da série Big Bang Theory.

Passaram por mais alguns barzinhos, e, muitos check-ins depois, encontraram uma que valia a pena ficar. Beowulf77 ficou aliviado, pois já eram quase 3 da manhã e ele teria que estudar matemática pra prova no dia seguinte.

Foi uma noite super legal. Sem largar seus smartphones, cada um postava no Twitter cada passo, cada cerveja bebida e cada arroba encontrada. Pena que não encontraram a @Vanessinhaaa_fofuxaaa, a menina que o Beowulf77 estava a fim. A mina não tinha Foursquare; como adivinhar os lugares que frequentava?

Depois de um tempo, a turma decidiu sentar e comer alguma coisa. Beowulf77 queria um ombro amigo para compartilhar seus sentimentos a respeito da @Vanessinhaaa_fofuxaaa, mas a turma estava quebrando a cabeça para fotografar os rótulos das cervejas e colocar no Instagram. Como a luz não favorecia, foram necessários muitos cliques até conseguir uma foto adequada. Em seguida, foram para a pista. Não dançaram, mas postaram dezenas de fotos. Cada um queria posar ao lado do aniversariamente e uma arroba popular, para postar em seus perfis. Quase deu cãimbra no Beowulf77 de tanta foto pra sorrir.

Exaustos, era pouco mais de 6 da manhã quando o amigo que tinha carro levou a turma embora. Triunfante, fez uma grande revelação: seu presente de aniversário. Beowulf77 arregalou os olhos, surpreso, e perguntou o que era.

— Eu que criei a hashtag #Bewoulf77day no Twitter!!!!

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@resonances
Sou mais a de hoje do que a de 15-20 anos atrás - é bem melhor.(Principalmente quando se desconta os exageros parciais no texto.)
@mistermantovani
Adorei!!! Compartilhei no meu blog, é lógico que dei os créditos.
@AhhLucas
Achei genial a coluna. Só não concordo com o ponto citando o iPhone. A maioria das pessoas compram o iPhone parcelado ,por ser um produto caro. Assim, eu não entendi a ironia. Tirando isso, achei muito legal.
@Mi_Kurosaki
Bia, preciso dizer que essa coluna foi incrível. Você expôs a realidade. Muita gente nega que faz isso, mas é verdade, a gente hoje se preocupa tanto, mas tanto com redes sociais, lotar perfil, postar fotos que curte muito menos as coisas simples de antigamente, chegando até mesmo a banalizá-las. Muito divertido, em especial o final. A diversão MUDOU e muito, mas a intenção permanece a mesma. O desfecho da tag do twitter foi muito legal mesmo. Me pergunto se fora baseado em uma história real? XD Parabéns, ótima matéria!!!
Rodrigo Fante
Discordo, muita gente ia só para dizer que ia, muita gente ficava bêbado apenas para se mostrar, posers não foram inventados agora, o ser humano sempre quis se mostrar, só ficou mais fácil agora. Não acho que mudou muita coisa, a única coisa é que nós ficamos mais velhos e hoje somos nós a fala, na minha época era melhor.
Blek Zarioky
Não gosto de balada, nem festas, nem nada do tipo. Mas pelo visto as antigas ao menos faziam algum sentido, porque né.
Cesar
Ainda vejo mais graça na vida offline do que ficar conectado 24h, twittando loucamente. Quem curte "balada" online é cagão na vida real rs
@consultormedico
Bia se supera a cada dia! M a r a v i l h a!
gargwlas
falou tudo almy
Almy Fróes
Hoje parece ser mais importante mostrar ter uma vida divertida do que ter realmente uma vida divertida.[2] e essa da cerva é mais do q comum aqui em vitoria, um saco
Thiago Sabaia
Quando eu vou para uma festa,e algo raro,mais quando vou eu não esqueço de levar meu smartphone para pode entrar nas redes sociais.
Fabio
Olha, lendo todo o teu comentário cheguei à conclusão de que a segunda parte do texto da Bia está perfeita, pois ela certamente conseguiu descrever com perfeição o comportamento dos adolescentes de hoje. Mas ao mesmo tempo isso me deixa muito triste... na boa, tua vida social me pareceu tão vazia. Brincar de passar rádio com Nextel, caçar redes wi-fi, tuitar constantemente, zoar em shopping... nossa, quanta coisa não divertida hehehehe. Não digo que devemos nos isolar da tecnologia, mas a mesma deve ser sempre apenas um meio, nunca um fim. Moderação é importante.
@rafaelsnunes
Achei meio exagerado esse texto viu, eu tenho 20 anos e não fico usando o celular quando estou na balada e nem ninguém que eu conheço, acho o cúmulo da nerdice vc SAIR DE CASA para ficar pendurado no twitter e facebook! o.O
gargwlas
nessa epoca de anos 90 e collor eu era piá de creche ainda... mas nao é por nada nao... ou vcs viajaram no seculo 20 (sem falar que um lance desse é sem graça demais) ou isso era festa da turma do big bang theory comemorando o aniversario do Leonard... uiaweuhawhueawie
Emanoel
Voce usou uma imagem dos Fraggles no thumb! LOL
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