Uma dos mais interessantes elementos que os videogames ganharam nos últimos anos (muito além dos gráficos fotorrealistas ou dos sensores que captam movimento) foi a habilidade de se conectar à internet. Redes online como a Xbox Live ou a Playstation Network trouxeram a nós a possibilidade de baixar jogos, trailers e demos, encontrar colegas para jogatinas, e atualizar nossos jogos favoritos — seja comprando material adicional, seja baixando patches que corrigem defeitos nos jogos.

Na nossa época (me refiro à turma que viveu sua juventude no começo dos anos 1990), jogo com bug era jogo com bug e acabou-se a história. Permaneceria daquela forma para sempre. Alguns dos bugs, já que tocamos no assunto, são incrivelmente hilários. Eis um bug de Goldeneye, do Nintendo 64, que deu origem ao meme internético “Get Down“:


(YouTube)

Entretanto, o que muitos talvez não saibam é que redes online para consoles não são exatamente uma ideia recente. Na verdade, a capacidade de consoles acessarem a web nasceu muito antes do que você provavelmente imagina.

E eu já sei o que alguns de vocês podem estar pensando… “O Dreamcast teve um modem, a gente tá cansado de saber disso!”, né? De fato, o acesso a web fornecido pelo Dreamcast é praticamente lugar-comum entre os conhecedores do mundo gamer. Entretanto, os exemplos que trago para você são bem mais velhos que isso. Mais velhos, talvez, que alguns leitores deste artigo.

Duvida? Vamos ver.

3. MegaNet para Mega Drive

Ouvi falar do MegaNet em 1992, se não me falha a memória, quando a própria internet ainda era um conceito extremamente novo (especialmente no nosso país). Um colega de sala nos trouxe uma daquelas saudosas revistas de videogames que falava sobre esse fabuloso sistema japonês que te permitia jogar com coleguinhas a distância, usando um tal de modem.

Mega Modem, para ser mais exato, era o nome do periférico. O aparelho não deu muito certo (pudera, considerando a época em que ele foi lançado: 1990!), e os planos de trazê-lo para a América do Norte, onde ele seria renomeado de TeleGenesis, acabaram miando. Menos de dez jogos acabaram sendo lançados para ele, todos de franquias obscuras.

Um produto um pouco mais avançado seria lançado no Brasil muitos anos depois — o MegaNet. Pois é, o nome é o mesmo, mas o periférico e o serviço eram completamente diferentes. Olha como era o modem:

E não é que, pelo menos uma vez, o produto nacional é melhor que o estrangeiro? O MegaNet brasileiro essencialmente transformava sua TV num computador rudimentar com acesso limitado à internet (além de permitir jogos multiplayer). Eis o menu inicial do serviço:

Nada mau para um produto lançado no Brasil, meio dos anos 90, e para um aparelho que a essa altura já era bem velhinho. E houve até mesmo um MegaNet 2!

2. XBAND, para Mega Drive e SNES

Dessa vez não foram apenas os Seguistas que gozaram de habilidades online. Lançado em 1994, o XBAND hoje recebe os créditos de ser o embrião que se tornaria um dia os serviços contemporâneos Xbox Live e PlayStation Network. Todas as ideias atuais desses serviços estavam lá, mais de 15 anos atrás.

XBAND

Primeiro, você comprava o modem da foto. Só por ser um periférico disponível tanto para o Mega Drive quanto o SNES, o XBAND já é digno de nota.

Após comprar o modem você pagava cinco dólares por mês, o que te dava direito a conectar à rede cinquenta vezes para acessar a newsletter do serviço, e-mail, listas de ranking, esse tipo de coisa. Para jogar online contra alguém, era preciso desembolsar outros quatro dólares por hora de jogatina.

Tinha sistema de mensagens, lista de amigos, era possível mandar mensagens para outros jogadores utilizando um teclado virtual na tela da TV e era até mesmo possível manter mais de uma conta no cartucho.

Praticamente todo jogo com suporte a multiplayer “local” (Na época nem havia essa distinção, né? Afinal, todo multiplayer era local, com dois controles atravessando a sala…) rodava no XBAND; bastava plugar o cartucho do game no modem. Jogos muito rápidos eram prejudicados pelo lag inerente de uma conexão discada, mas com alguma boa vontade ainda dava para se divertir.

Para época em que foi lançado, o XBAND era surpreendente.

Mas você deve estar se perguntando: “Izzy Nobre, você falou que alguns desses sistemas poderiam até ser mais velhos que nós. Modem para Mega Drive e SNES não é algo tão velho assim, né?”

Bem apontado. Mas e se eu te disser que modem para videogame na verdade já existia desde o começo dos anos 80?

1. GameLine para Atari 2600

Eu sei, é difícil acreditar, mas existiu um modem para Atari 2600 (que nós no Brasil identificamos melhor como simplesmente “Atari”). Veja essa propaganda numa revista de informática de 1982:

"Apresentando a única maneira de jogar mais de 100 games com apenas um cartucho"

"Apresentando a única maneira de jogar mais de 100 games com apenas um cartucho"

Se o XBAND era impressionante considerando a época em que foi criado, o GameLine era simplemente inacraditável. Tratava-se de um modem bastante rudimentar que ia na entrada de cartuchos do Atari 2600.

O modem custava aproximadamente 60 dólares, depois você desembolsava outros 15 dólares para uma conta vitalícia, para então ter o privilégio de poder comprar games via internet por um dólar cada. Os jogos podiam ser jogados 10 vezes.

Havia planos de implementar outros serviços além do download de games (fóruns online, e-mail, online banking, entre outros), mas o serviço acabou descontinuado antes que essas funções viessem a tona. Os fabricantes nunca conseguiram licenciar jogos famosos para o serviço, e jogos genéricos não atraem muito público. O GameLine, como tantas outras ideias a frente do seu tempo, morreu cedo.

E ainda tem mais: o inventor do GameLine, um sujeito chamado William Von Meister, desenvolveu o aparelho inicialmente como um método de distribuir músicas via linha telefônica. A ideia não foi adiante, mas a tecnologia de distribuição digital estava lá, e jogos acabaram sendo o conteúdo vendido pelo GameLine.

Quem diria que em plenos anos 80 a molecada nerd já estava comprando joguinhos de um dólar (e bolando a ideia de venda de músicas) numa loja online, hein?

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wagner lima

Eu jogava Unreal Tourment

Codemastershock
Não, tinha só download de jogos, rankings e notícias. O pior do serviço é que ele só funcionava em determinados horários, você não podia entrar na rede quando bem quisesse...
nélio
Excelente!Super Nintendo e Mega Drie disputavam e o mercado e quem ganhava era todos nós do Brasil.Valeu pela matéria que muitos desconheciam,inclusive eu...Anos de Ouro jogar na Madruga at;e Zerar os Jogos.Rsrsrsrsr.
J. Neto
O satellaview (?) tinha suporte a multiplayer online??
Thiago Sabaia
Velhos tempos do Megadrive,Supernitendo,etc.
fernandu00
Cara, excelente artigo! nunca imaginei que consoles tão antigos teriam esse tipo de tecnologia. eu tinha certeza que tudo havia começado com o dreamcast..que bobo.. Izzy vc está de parabéns pelo conhecimento e por compartilhá-lo com todos!
Xong Lee
Eu joguei no atari com um treco parecido que lia os jogos de um gravador de k-7s. Demorava uma eternidade.
@lucaspaint
eu lembro desse Mega Net, se não me engano uns jogadores de futebol que fizeram a propaganda do produto na TV.
@ferosell
Eu tive um Mega Net, usei com o pouco conhecido Sega CD, mas pouco tempo depois a Tec Toy desativou o serviço e troquei o modem por outros jogos.
Tchulanguero
A moçada sempre adora dizer que empresa X foi revolucionária por ter feito isso ou aquilo, mas eu sempre vejo na verdade é empresas sabendo implementar tecnologias de forma correta, e esse é exatamente o caso da internet nos consoles ou até mesmo sensores de movimento. Agora esse do Atari eu nem lembrava, agora do MegaNet BR eu lembro das propagandas na época.
Diones Reis
Ótima matéria, Izzy. Muito legal mesmo, parabéns. O que eu mais gostei foi da informação do Gameline, o serviço da Atari, que você conseguiu descobrir e comentar no seu post. E para os leitores da sua coluna com mais de 30, ou seja, que aproveitaram a infância na década de 80, acreditem que devam se elmbrar (ou não), que este serviço do Gameline esteve disponível aqui no Brasil. Para os que devem lembrar, o garoto propaganda era o Sérgio Mallandro, e na época eu e alguns moleques da minha vizinhança ficamos maravilhados em ver na propaganda, que podiamos jogar vários cartuchos de Atari, bastando apenas ter uma linha telefonica. Não preciso dizer que na época, o valor de um telefone para a época era o equivalente a um carro, e que dava pra contar nos dedos de um pé de galinha quem tinha telefone por ali. Segue o link que eu encontrei para quem não se lembra da parada. muriloq.com/canal3/0005/5081.html
@renanferrari2
Caramba, lembro de ter visto aquele "trambolho" em um SNES, e não fazer a mínima idéia pra que servia. Quem diria que hoje, mais de 10 anos depois, eu iria descobrir o que diabos era aquilo? :D Artigo bem legal, parabéns.
j2k
esses artigos nostálgicos estão demais!!! Muito bom mesmo!!
Hernani
Perfeito, só de saber que a SEGA tinha esse tipo de investida naquele tempo já me enche de orgulho ^^ Mas uma coisa, que aqui no Brasil comelou a se popularizar mesmo com a atual geração de consoles. Na época de lançamento do PS2, aquela conexão ethernet que fica atrás do console era uma incógnita. Eu nunca utilizei ela quando tinha o PS2, hoje considero indispensável para o PS3. Izzy saberia me dizer como foi em outros países como EUA, se jogar online na geração passada já era algo comum entre os gamers, ou realmente foi adotado na atual geração
Gabriel Bemfica
Geralmente aprendo coisa pra caramba com os artigos do Kid, mas esse simplesmente MATOU A PAU! Parabéns, manolo! Ótimas informações!
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