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O fim de Guitar Hero e Tony Hawk

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As franquias pereniais – ou seja, aquelas que parecem que jamais acabarão – são quase um clichê da cultura popular, dos filmes de terror cujo número chega chega na casa dos dois dígitos aos jogos de esporte que recebem continuações todo ano sem falta. A série Final Fantasy, com quatorze iterações, é particularmente irônica por ter tantas continuações, mas “final” no nome.

Entretanto, neste mês dois jogos iconicamente “sem fim” foram cancelados por sua desenvolvedora. A Activision anunciou o fim de Guitar Hero e Tony Hawk. E do desenvolvimento do terceiro jogo da série True Crime, também, um clone de Grand Theft Auto que nunca causou grande impacto. A empresa focará seus esforços nas propriedades intelectuais que rendem mais – especificamente, World of Warcraft e a série Call of Duty.

Tony Hawk nasceu no longíquo ano de 1999 (quando a gente achava que computadores nos matariam porque esqueceriam em que ano estavam) no primeiro PlayStation. De lá para cá a franquia teve dezesseis títulos. A série é tão extensa que um dos jogos tem como nome uma quase paródia do título do outro (Tony Hawk’s Wasteland e Sk8land). E o desinteresse do público pela série atualmente parece ser tamanho que o último jogo da franquia (“último” literalmente) vendeu apenas 3 mil unidades na semana de lançamento. E isso inclui todos os consoles para quais o jogo foi lançado.

Para fins de comparação, Call of Duty Black Ops vendeu sete milhões de cópias nas primeiras 24 horas de lançamento. Não dá para culpar a Activision por querer mudar de foco.

Até que ponto é possível refazer o mesmo jogo? Jogos de esporte escapavam dessa crítica em parte por oferecer equipes atualizadas todo ano, para representar apropriadamente as modificações que times sofrem a cada temporada. O avanço da distribuição digital e upgrades via rede tornaram este argumento nulo. Não é mais necessário lançar um jogo inteiro só para mudar os nomes dos jogadores nas camisas. Além disso, de um ano para o outro não costumam ocorrer imensos avanços gráficos que justifiquem a criação de um jogo novo inteiro só para exibir a nova engine gráfica, se fosse o caso.

Um fenômeno similar ocorreu com Guitar Hero. O jogo surgiu em 2005, mas desde então as continuações foram tantas (mais de dez títulos em apenas 6 anos, seis destes parte da franquia “principal” e os outros, spin-offs) que a série saturou mais rapidamente que a do skatista americano. As vendas começaram a cair, o que indica que o público talvez tenha cansado do gênero musical.

As guitarras do Izzy Nobre

Saturação? Eu que o diga. Essas nem são todas as minhas guitarras, aliás... Duas estão emprestadas.

No caso de Guitar Hero, a única novidade tangível nas continuações do jogo eram as novas músicas. Sim, houve algumas modificações no gameplay, e sim, inventaram um controle novo com novas funções e eventualmente até mesmo adicionaram um controle-bateria para equilibrar a disputa com seu principal competidor, o Rock Band. Mas o único real motivo pelo qual gamers se davam ao trabalho de colecionar os jogos da série eram as músicas novas.

E, como já falei, graças aos nossos consoles com conexão à internet e pacotes de expansão vendidos por distribuição digital, não era realmente necessário multiplicar os títulos da série como pretexto para veicular novas canções. A saturação foi inevitável.

Agora, cá entre nós, eu ficaria muito surpreso se ambas as séries não acabassem retornando eventualmente no futuro. Lembra quando Mortal Kombat: Armageddon foi marketeado sob a pretensão de ser o último jogo da série? Quando a Midway entrou em falência, aí mesmo que a clássica série de luta tinha chegado ao fim. No entanto, vem aí mais um novo jogo da série.

A lição a ser aprendida é que a saturação de um gênero ou jogo é um fenômeno real e que pode eventualmente matar uma franquia (como os jogos de esporte continuam ano após ano – por mais de uma década – sem sofrer os efeitos disso é um mistério). Por outro lado, a morte de uma série não é necessariamente definitiva – propriedades intelectuais às vezes mudam de dono e acabam aparecendo nos consoles novamente. Duke Nukem Forever é um exemplo clássico de propriedade que mudou de mão e teve seu desenvolvimento continuado após os criadores originais terem essencialmente dito que “não dá mais”.

E você, sentirá falta de Tony Hawk e Guitar Hero? Ambos já haviam se tornado ícones dos videogames (especialmente o primeiro). Era realmente a hora de irem embora?

E tem mais. Call of Duty é um sucesso absoluto no momento, vendendo absurdos sete milhões de cópias no dia do lançamento. Acontece que a série já é velhinha também, e já tem sete títulos (com o oitavo agendado para sair esse ano). Notaram um padrão aí?