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Ideia de jerico: Bolsa Família pelo celular

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Eu ainda estava comemorando o possível fim do roaming na telefonia móvel quando dei de cara com uma matéria na Folha de São Paulo que me fez reler, 5, 10, 15 vezes para acreditar: os beneficiários do programa Bolsa Família vão receber seu benefício pelo celular. O projeto foi concebido pela Caixa Econômica Federal e deve ser implantado no início de 2011.

A estreia da Caixa como prestadora de serviços de telefonia é uma possibilidade inédita graças às novas regras da Anatel, que permitem a associação de qualquer empresa às operadoras móveis, usando a infraestrutura das teles para a prestação de serviços aos clientes de ambas.

Há duas maneiras de explorar esse novo potencial de negócios: 1) Com as empresas comprando minutos das teles por atacadoe revendendo (ou oferecendo como bônus) aos clientes; ou 2) Alugando a rede da operadora para prestar o serviço. Esse último é o caso do Bolsa Família móvel, que funcionará implantando-se um novo chip dentro do celular, transformando o aparelho num “cartão bancário”.

O serviço Square também oferecerá pagamentos por meio do iPhone, de forma similar ao projeto do Bolsa Família móvel

O sistema é igual ao da recarga de um celular pré-pago. É possível carregar o celular com créditos que funcionarão como dinheiro, fazendo-se transferências da conta corrente via internet, agências e caixas eletrônicos. O benefício do Bolsa Família chegará dessa forma às 12,3 milhões de famílias atendidas pelo programa.

Para o serviço funcionar, os beneficiários deverão, evidentemente, possuir celulares e chips de operadoras. Apesar de um provável custo a mais, a Caixa calcula que o gasto será menor que o de levar agências ou caixas eletrônicos ao grande número de municípios brasileiros ainda não assistidos por agências bancárias. Também é preciso que exista sinal de celular funcionando em todos os municípios atendidos. A Caixa garantiu que onde falta cobertura, ela chegará até o fim de 2010.

Onde a porca torce o rabo

A maioria dos grandes bancos, como BB, Itaú e Bradesco, já estão com projetos prontos para emplacar o mobile payment no Brasil em 2011. Sem dúvida, é um grande avanço transformar nossos celulares em “carteiras eletrônicas”, substituindo o uso dos cartões de débito e crédito… Desde que a adesão não seja compulsória!

Se há uma reconhecida dificuldade dos bancos e dos sinais de celulares chegarem à uma gama de municípios brasileiros, o que dizer dos comerciantes dessas localidades, que evidentemente deverão se adaptar a essa nova modalidade de pagamento de seus clientes?

Para o beneficiário do Bolsa Família fazer uso do dinheiro recebido pelo programa, a fim de adquirir mantimentos, roupas ou serviços, eles deverão aproximar seus celulares dos terminais presentes em estabelecimentos comerciais. Todos os pequenos comerciantes se verão obrigados a adquirir ou adaptar seus terminais financeiros. Ou então o usuário poderá se deslocar até um município que tenha um banco e liberar o benefício em dinheiro na boca do caixa (que evidentemente cobrará por isso, além de exigir novos acordos entre instituições financeiras, o que não acontece de uma hora para a outra).

Para piorar, as telecoms estão pressionando a Anatel para que as empresas interessadas em prestar serviços de telefonia a seus clientes, como a Caixa, sejam obrigados a fechar parceria com somente uma operadora. A ideia inicial era que a companhia se associasse a quantas operadoras quisesse. Segundo a Folha, na semana passada, um conselheiro da Anatel pediu vistas e paralisou o processo. Na avaliação de especialistas, a exclusividade das operadoras poderá levar o serviço ao fracasso, pois é comum que correntistas de um banco já possuam um celular. Com a parceria exclusivista, ou o usuário troca de banco, ou troca de operadora. Sem contar as cidades cobertas atualmente por uma operadora apenas!

Claro que, para as telecoms, a ideia do Bolsa Família pelo celular não é nada de jerico. Com tantas burocracias e restrições no acesso ao benefício, o mais provável que ocorra, no fim das contas, é o auxílio do governo sendo todo engolido por chamadas, aparelhos, taxas e serviços das próprias operadoras. Alguém duvida?