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Google Street View, redes sociais e segurança pública

Bia Kunze

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O Google Maps e o Google Earth são sucessos de público e crítica, graças à precisão e o poder educacional. Seu “filhote” Street View encontra no turismo a maior utilidade, permitindo ver com detalhes cidades históricas, aprofundando o acesso ao povo e à cultura de diversos pontos do mundo. Imagine, que lindo, conhecer o Coliseu em Roma como se estivesse em frente ao próprio!

Bem, pelo menos assim deveria ser.

A estréia do Google Street View do Brasil trouxe à tona, mais uma vez, a discussão do direito à privacidade. Diferente das redes sociais, onde promove-se uma exposição deliberada, no Street View qualquer mortal está sujeito a ter exposta ao mundo sua cara, os lugares que frequenta ou, nos casos mais pitorescos, suas mancadas ou falta de educação. Não é uma polêmica exclusivamente brasileira. Em vários países europeus houve protestos. Os alemães estão entre os mais revoltados. Até na bucólica Dinamarca o serviço não foi bem-vindo.

Logo no primeiro dia, chamou a atenção da imprensa brazuca alguns cadáveres no RJ e MG. O Google levou um puxão de orelha público pelo mau gosto e prometeu retirar as imagens. Mas o que se viu em seguida foi uma sucessão de pérolas. Cenas engraçadas, escatológicas, degradantes ou assustadoras circulam pela web, estando as melhores em blogs de coletâneas estilo “o pior do Street View.”

Tem gente andando semi-nua, perambulando ou estacionando em lugares suspeitos, cometendo infrações de trânsito, urinando em vias públicas e até flagras de prováveis arrombamentos de automóveis e casas. E muita, mas muita gente coçando as partes pudentas. Céus, será alguma epidemia de Pthirus pubis?

O Google diz que pode remover imagens do Street View sob solicitação. Até lá, porém, o estrago já pode estar feito. Bebeu até vomitar depois da balada? Bateu aquele piriri no meio da rua e não deu para segurar? Você será o último a saber que uma perspicaz câmera do Google estava no local e hora errada…

Afinal, o que vale sob a ótica da lei? O Google pode ver e fotografar pessoas em quaisquer lugares públicos. Contudo, publicá-las abre um precedente. Nem é preciso protagonizar cenas constrangedoras: a pessoa pode simplesmente não querer que o mundo a veja no portão de sua casa, mostrando sua propriedade particular. Considerando o Brasil, certamente maloqueiros digitais podem usar o Street View para planejar crimes.

Eu, pessoalmente, já acho assustador pessoas tuitando onde estão, ou atualizando seu Foursquare constantemente. Uma breve fuçada no histórico da pessoa pode mostrar seus hábitos, e até saber que gadgets caros ela gosta de levar por aí. É de arrepiar. Já dei puxão de orelha em amigos que mostram seus filhos pequenos recorrentemente em playgrounds e shoppings manjados.

Há toda uma grande discussão sobre privacidade, direitos de imagem e limites no uso das redes sociais. Fala-se que vivemos num grande Big Brother, e que as pessoas buscam espontaneamente algum tipo de exposição nessa era online. Porém, minha preocupação é completamente diferente: segurança pública. Curioso que a imprensa não fale muito desse ponto de vista, mesmo que tenhamos bem mais com que nos preocupar do que os dinamarqueses. Será que estou sozinha nessa paranóia?

Imagem: Tô no Google, mãe!