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Quando o tiro da distribuição digital sai pela culatra

Izzy Nobre

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Quando a Steam começou a decolar há alguns anos, hipotetizou-se que um dia viveríamos num mundo em que não existiria mais mídia física para videogames. O Xbox 360 e o PS3 seguiram a tendência, oferecendo vários títulos para download – tanto jogos menores (de desenvolvedores independentes) como os jogos de verdade (os grandes lançamentos de empresas renomadas).

Os consoles portáteis demoraram um pouco, mas também adotaram o modelo de mídia virtual. O (não tão) recém chegado DSi tem a DSiWare, que é bastante análoga à App Store do iPhone – compartilhando inclusive alguns dos mesmos jogos -, e o meio mal sucedido PSPGo deu cabo do definitivamente mal sucedido UMD. E a tendência sequer é exclusiva do mundo dos games, já que existem há anos sistemas de entrega de conteúdo digital que dispensa formatos físicos, como a iTunes Store ou, mais recentemente, o Netflix.

Até o humilde Zeebo, o console “brasileiro” (na realidade mesmo ele foi desenvolvido pela Tectoy of America, mas enfim), apostou no modelo.

Eu sempre fui um grande proponente da distribuição digital. Com exceção notável da App Store, as lojas virtuais impedem essencialmente qualquer esforço de pirataria. Eu estaria mentindo se dissesse que jamais pirateei um jogo na vida (na época dos Palms, jamais comprei um sequer, e baixei algumas ROMs de DS no meu tempo), mas com o tempo eu cheguei à conclusão de que a pirataria realmente afeta a indústria. E nestes tempos recentes de boom de estúdios independentes, talvez seja mais importante que nunca prestigiar o trabalho dos desenvolvedores.

Mas não é só por isso que distribuição digital é um modelo bacana. Tem também a questão da conveniência de obter os jogos sem precisar sair de casa, e o fato de que o preço é geralmente um pouco menor do que a versão física do jogo (não menor o bastante, infelizmente. Mas isso são outros quinhentos…).

Para turma ecologicamente consciente, há ainda o bônus de que a versão digital não tem caixa, nem encarte, nem disco – subprodutos de finalidade puramente cosmética que são, por mais que você aprecie a embalagem e os valores de produção, completamente tangenciais ao que você está realmente comprando: o software. E que acabarão inevitavelmente emporcalhando o planeta a troco de nada.

Entretanto, nem tudo é perfeito. Mesmo eu, um grande defensor da distribuição digital, eventualmente acabaria me encontrando numa posição em que o modelo se mostra desvantajoso.

Estou em um processo de mudanças em que acabarei me separando de alguns dos meus consoles. Temporariamente, pelo menos; estou na prática me aproveitando da situação para analisar a compra dos novos modelos atualizados. “Analisando” é uma palavra-chave: a correria diária que me impede de apreciar meus consoles me faz duvidar que tenho de fato a necessidade de possuir todos eles, então existe a possibilidade de que eu esteja dando adeus a alguns deles.

Passar os videogames para frente me deixará inevitavelmente no prejuízo. Se somar tudo que eu já comprei nas redes virtuais do Xbox 360 e do PS3, o valor dos consoles dobra. A única forma de obter a grana que investi nos jogos seria adicionar ao preço final dos consoles o valor que torrei nos joguinhos, mas aí fica a critério do comprador aceitar a cifra adicional (o que seria bem improvável, uma vez que eu estaria empurrando para cima dele jogos que ele sequer escolheu).

Ainda que o comprador aceitasse o preço, eu teria que dar a ele minha conta nos serviços online do respectivo console, para que ele possa ter acesso aos jogos. Eu não preciso te explicar por que isso não é uma boa ideia.

A distribuição digital resolveu um monte de problemas, mas a natureza do sistema acaba gerando outros – principalmente, o fato de que você não “tem” realmente os jogos que compra. Ao menos, não no sentido que sempre demos à palavra “ter”. Ou seja, posse total e garantia de fazer com o bem o que preferir. Os jogos são seus até o dia em que você não os quer mais. Quando isso acontece, a posse simplesmente acaba de existir. Você não pode vendê-los.

O que assusta pouco é que como o modelo chegou para ficar e começa a se espalhar para praticamente todo tipo de mídia digital (filme, música, livros, jogos), a única solução é uma redefinição para o significado de “ter” alguma coisa.