Início » Celular » Desoneração de e-readers? Só em sonho…

Desoneração de e-readers? Só em sonho…

"A imensa maioria dos livreiros insiste em permanecer na época das cavernas. Vejam: época das cavernas não é a era do livro de papel. É a era do livro nenhum."

Avatar Por

kindle-brasil

Depois de muita espera, a presidente Dilma Rousseff assinou o decreto para desoneração dos smartphones. Ótima notícia: depois dos PCs, vieram os tablets e agora os smartphones. Viva a inclusão digital! Mas… e os e-readers? Esses continuam num ostracismo de dar pena.

Primeiro, por causa da eterna implicância dos fetichistas do papel: aqueles malucos que dão mais importância ao cheiro das folhas do que ao conteúdo. Em vez de ficar discutindo se livro digital é melhor que o de papel, que tal discutir as novas oportunidades que a tecnologia trouxe? Por exemplo, o acesso aos livros em lugares carentes de bibliotecas? Ou a melhor distribuição do material didático eletrônico? E claro, as novas modalidades de negócios?

Os donos de livrarias brasileiras vivem em outro mundo. No final do ano passado, quando os leitores digitais começaram a desembarcar no Brasil, a Associação Nacional de Livrarias (ANL) divulgou carta aberta propondo medidas “protecionistas” contra o livro digital. Algumas delas: intervalo de 120 dias entre o lançamento dos livros impressos e os digitais; o mesmo desconto de revenda do livro digital para todas as livrarias; a implantação de um teto de 30% na diferença de preços entre livros físicos e digitais; e a limitação em 5% no desconto dos e-books.

A imensa maioria dos livreiros insiste em permanecer na época das cavernas. Vejam: época das cavernas não é a era do livro de papel. É a era do livro nenhum. É a era em que o Brasil vive: somos um país de neandertais que não gostam de ler! Para que medidas protecionistas se não há do que se proteger? O brasileiro prefere gastar R$ 30 em um boteco a uma livraria!

Os livros digitais são, na verdade, uma oportunidade. Dos livros chegarem onde as livrarias e bibliotecas não chegam. De atingir novos públicos, especialmente o mais jovem e conectado. De baratear e diversificar os títulos. O Brasil tem 3,4 mil pontos de venda de livros espalhados pelo país. Sozinha, a cidade de Buenos Aires tem mais.

Uma meia dúzia de empresários mais visionários, como Sergio Herz, da Livraria Cultura, apostam no universo digital, sim. Fãzaço de tecnologia, há 3 anos nos encontramos pessoalmente, e ele lutava para ter livros digitais em sua rede de lojas. Mas levava uma cabeçada atrás da outra – por causa da cabeça dura dos outros.

O mais recente revés veio semana passada, justamente de quem mais poderia estimular a leitura em nosso país: o governo.

A Livraria Cultura está há tempos tentando livrar os e-readers Kobo dos impostos de importação para comercializá-los localmente a preços mais acessíveis. Semana passada saiu uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, ao julgar Agravo de Instrumento ajuizado pela União contra liminar favorável à suspensão da exigibilidade de tributos na importação, pela Livraria Cultura. As procuradoras da Fazenda Nacional Raquel Vieira Mendes e Lígia Scaff Vianna entendem que:

“Não há como se equiparar os e-readers ao papel destinado à impressão de livros, para fins de extensão da imunidade tributária prevista no artigo 150, inciso IV, alínea ‘d’, da Constituição Federal, pois são contemplados pela imunidade exclusivamente livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.”

A íntegra da decisão está aqui. Em resumo, a União atesta que, mesmo sendo um dispositivo dedicado, exclusivo para a leitura de livros e periódicos, não se pode equipará-los a jornais, revistas e livros convencionais. Porque são “equipamentos para armazenamento e leitura de dados representados por texto.”

Lendo isso, fica a impressão que brasileiro já compra bastante livro. Que temos livrarias e bibliotecas à vontade. Que incentivo à leitura é algo que não precisamos. Na mentalidade tacanha de nossos governantes, o que precisamos na verdade é de… automóveis!

Comentários

Envie uma pergunta

Os mais notáveis

Comentários com a maior pontuação

Ewerton J. Gomes
Olá. Estou escrevendo um trabalho de conclusão de curso sobre soluções sustentáveis para reduzir o uso do papel e gostaria de saber se há viabilidade no uso de e-readers, considerando que os recursos naturais demandados para a produção de um e-reader podem superar a os demandados na produção do papel, mesmo que reduza drasticamente o uso deste último. Ou seja, o impacto do e-reader faz valer a pena a sua produção?
Willian de Oliveira
será que a Dilma pelo menos leu em um e-reader pra decidir?
Luiz Tanure
ainda nao terminei de ler, estou no inicio, mas nao tem como nao falar, que tratar os `livreiros`assim é muito achismo e ataque sem conhecimento... eu só nos ultimos 6 meses ja desenvolvi 3 solucoes para grandes livrarias/editoras, para leitura de livros em tablets / celulares
Marcio Neves Machado
“Não há como se equiparar os e-readers ao papel destinado à impressão de livros, para fins de extensão da imunidade tributária prevista no artigo 150, inciso IV, alínea ‘d’, da Constituição Federal, pois são contemplados pela imunidade exclusivamente livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.”
Imagina se o papel é trocado por algum polímero mais resistente, mais barato, e mais ecológico de se produzir. Só imaginem. Isso significaria que QUALQUER COISA impressa nesse novo material que não é papel deixaria de ter isenção de tributação. A lei às vezes é restritiva demais, ao não contemplar possíveis mudanças de paradigmas. E antes que alguém ache isso irreal, realize para o fato que (muito) antigamente se utilizavam peles de animais na confecção de pergaminhos. É só transpor o argumento trocando "papel" por "pele", que veremos o quão cega é a argumentação da lei :(
wpcortes
Pela primeira vez estou comentando aqui no tecnoblog, apesar de acompanha-lo há muito tempo. E decidi comentar porque o assunto é realmente relevante. Os e-readers são um belo instrumento para o aumento nas vendas das editoras e autores, além de permitir que autores antes sem recursos sejam publicados, se eles escolherem o modelo de negócio adequado. Vejam o exemplo de uma das grandes editoras americanas de livros de TI, a O'Reilly. Além do negócio tradicional de livros em papel, que são distribuídas globalmente (no Brasil sendo publicada pela Novatec), eles vendem ebooks também (mas apenas em seu site). Inclusive, eles tem um programa que, caso você possua um livro da editora, tem a opção de comprar a versão ebook por apenas 4,99 dólares. Como eles fazem isso? Eles pedem que você registre o ISBN do livro no site deles e associe a sua conta. Como vocês podem imaginar, o ISBN de um livro não é único para cada exemplar, então um mesmo ISBN será associado a várias contas. Mas essa não é a questão: a questão é que eles não validam realmente se a pessoa tem o livro físico ou não. Uma pessoal mal intencionada pode digitar o ISBN de vários livros sem possui-los e comprar a versão ebook por apenas 4,99 dólares. Parece um negócio furado onde eles estão perdendo dinheiro, certo? Mas vocês tem idéia do quanto eles têm vendido em ebooks? Pois é, estão vendendo muito... Criando uma base de compradores fiéis, e crescendo.... Então, é apenas uma questão de pensar em um modelo sustentável.
carloshermano
Vez ou outra tenho visto alguns Kobo nas mãos de pessoas durante a viagem de Metro que faço diariamente em São Paulo. Isso tem me surprendido!
Vitor Felipe
P e ois é...um povo sem cultura garante os votos e as artimanhas em baixo dos panos em Brasília. Na verdade eles são muito inteligentes. Porque um povo sem cultura e mergulhada no consumismo burro...é igual ao símbolo da justiça...cega que só. Ótimo post!
Rodrigo Fante
Segundo estudo da Cerlalc, o brasileiro lê em média 4 livros por ano, o argentino 4,6, diferença irrisória que me leva a questionar, qual a fonte sobre o número de pontos de vendas no Brasil inteiro e Buenos Aires? Lemos pouco? sim. Mas é um problema crônico de todo nosso continente, infelizmente.
andycds
"O Brasil tem 3,4 mil pontos de venda de livros espalhados pelo país. Sozinha, a cidade de Buenos Aires tem mais." Você poderia citar as fontes destes números? Duvido muito que estejam certos.
Renan Esposte
(faltou o *ba dum tss*) Sim, excelente texto!
Rafael Souza
Difícil dizer que seja por causa desses fatores que os e-reader deixam de ser um "sucesso" por aqui.Quem quer ler mesmo baixa a versão (que geralmente a pessoa tem o livro impresso e escaneia) digital,geralmente em pdf, e lê no seu Smartphone,tablets xing lings ou na tela do seu computador mesmo. É claro que o governo tem culpa por cobrar altos impostos,mas isso serve para tudo,infelizmente.O que realmente falta,e todos já sabem,é a iniciativa partir das próprias pessoas em começarem a ter o hábito da leitura (eu me incluo rs) e fazer do livro seja impresso ou digital o seu melhor amigo. Outra coisa que todos estão carecas de saber é que o governo prefere do jeito que está,com pessoas sem senso critico, analfabeto funcionais, para de certa forma manipula-los muito mais facilmente,é só colocar algo na tv para "todos" acreditarem rs,principalmente a "grobo" rsrs. Mesmo que os livros não sejam assim tão baratos,podemos fazer um esforço para adquiri-los,ou até comprar em sebos,ou seja, só não lê quem realmente não quer e não tem interesse,acha perda de tempo rs.
Bruno Guerreiro
Sobre o Kobo da Cultura tenho que discordar... Até umas 4 semanas atrás, a Livraria Cultura estava com zero de estoque do Kobo Glo... a própria vendedora da Livraria (Marketplace) disse que tinha saído muito rapidamente, e que o tempo de espera estava em 6 semanas! Quando lançaram o Amazon Paperwhite o estoque se normalizou...
Daniel lucena
Se uma pessoa lesse um livro de finanças pessoas antes de optar por um financiamento de um automóvel, teríamos menos carros lotando as ruas, menas pessoas endividadas, isso é FATO! Não tenho carro porquê só tenho dinheiro pra pagar a prestação, e além do mais, isso não resolve meu problema!
Erick Mendonça
Fantástico. Talvez realmente não seja papel do jurídico intervir nesse caso, mas também não é papel deste intervir em vários outros e nem por isso o deixa de fazer. Cabe a nós cobrarmos do executivo para que os atuais projetos de desoneração incluam também os e-readers!
Murdock
Certamente a leitura deles se limita às piadas bobas inseridas em imagens do Chapolin.
Exibir mais comentários