Eu sou um grande apologista da ideia de que videogames podem (à essa altura, devem) ser considerados uma obra de arte e eu suspeito que a você acham o mesmo. Também, pudera: mais do que nosso hobby favorito, videogames são praticamente parte da nossa identidade pessoal. Aliás, acho que seria difícil encontrar um entusiasta de games que não categorize o entretenimento eletrônico como meio artístico.

Entretanto, saia um pouco do círculo nerd gamer e você verá que essa opinião não é compartilhada pelo mundo em geral.  Se você tentar argumentar pra alguém que não tem a mesma inclinação que a gente, o resultado às vezes é uma rejeição imediata dessa noção. “Como assim arte, cara? Esses joguinhos aí que ensinam as crianças a fuzilar escolas? Não força.” Talvez essa seja uma das repostas que você vai receber.

Este sujeito nunca deve ter visto Okami, Shadow of the Colossus ou Flow. É natural que ele não entenda como o meio evoluiu como uma forma de expressão; não é surpreendente que este interlocutor hipotético adote as noções sensacionalistas a respeito dos games.

Para a população em geral, eu acho que existem três empecilhos para a aceitação de games como um meio artístico.

Parafraseando o capitão Nascimento, este herói folclórico nacional: quem financia isso aí são vocês, a turma mais velha.

Parafraseando o Cap. Nascimento, este herói folclórico nacional: quem financia isso aí são vocês, a turma mais velha

Primeiro, a perene impressão de que videogame é “coisa de criança” e que, se chega a ocupar algum espaço na taxonomia artística, é ali do lado de livros ilustrados pré-escolares ou CDs com canções de ninar. Não importa que o público gamer tenha idade média de 30 anos (e que apesar de carregar o hobby há mais de uma década, já não eram mais crianças); não importa que os consoles custem três dígitos e evidentemente não sejam o tipo de indústria que crianças tenham o poder de custear (e há um certo limite para o poder de persuasão infantil em relação aos pais).

O outro empecilho é a impressão que a mídia sensacionalista de que videogames são sistemas de treinamento para psicopatas, desensitivizando nossos jovens ao ponto de que eles se tornem capazes de cometer massacres. Choque jornalístico vende e, na falta de maiores informações durante os primeiros momentos de alguma tragédia envolvendo gente jovem e armas, a mídia rapidamente tece a narrativa de que o suspeito era um nerd recluso que passava mais tempo jogando FPS do que fazendo qualquer outra coisa.

Pior ainda é quando os próprios psicopatas “admitem” que usaram games com o propósito de se preparar para um massacre, como foi o caso recente do atirador da Noruega. O cara acredita que seu hábito de jogar um game de tiro por horas a fio se traduziu como uma habilidade marcial no mundo real. Como se eu pudesse me tornar um atleta jogando FIFA várias horas por dia.

É interessante como em geral todos desmerecemos a plataforma ideológica xenofóbica que ele tentava pregar, mas no momento em que ele diz que jogou Modern Warfare por 16 meses para se condicionar ao uso das armas, há quem dê validade à opinião dele.

Modern Warfare: treinamento suficiente para manusear armamentos?

Modern Warfare: treinamento suficiente para manusear armamentos?

Finalmente, há a questão da (relativa) breve vida dos consoles. Na maioria das pessoas, um senso crítico mal calibrado pode torná-las extremamente reacionárias a tudo. Rejeitam novidades. Sendo videogame possivelmente um dos mais recentes métodos artísticos, talvez ainda demore pra que a maioria da população passe a ve-los da mesma forma como filmes, por exemplo.

Isso me faz pensar. Cinematografia tem pouco mais de 100 anos de existência. É provável que em sua concepção, a coisa era vista como uma tecnologia interessante e só. Os primeiros filmes, aliás, eram nada senão cenas disconexas; a experiência visual era tão impressionante que dispensava história. Hoje, um século e alguns Coppolas/Hitchcocks/Kubricks depois, cinema é uma categoria artística – a “sétima” arte.

Será que daqui cem anos haverá a mesma apreciação por um jogo de NES, por exemplo? Tudo bem que já existem exibições de museu mostrando games (e não é qualquer museu de esquina, caso você more numa cidade com museus em esquinas), mas me refiro a algo mais do que um evento isolado. Eu imagino um futuro em que, quem sabe, os jogos com os quais nos entretemos quando mais novos serão exibidos numa galeria do Louvre, com guias especializados na história da indústria dando palestras, gente tirando foto na frente de um Duck Hunt emoldurado, esse tipo de coisa.

Eu particularmente acredito que videogames terão a longevidade suficiente para que se tornem uma parte intrínseca do que a nossa consciência coletiva aceita como arte, tal qual uma sinfonia ou uma escultura romana. Estamos vendo o comecinho disso (orquestras tocando trilha sonora de Sonic, ou o exemplo acima do Smithsonian), mas por enquanto isso ainda é mais voltado para os fanboys mesmo.

Quem sabe daqui a cem anos?

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TatoGomes
Concordo. Eu, por exemplo, jogo quase que unicamente jogos de futebol, sejam eles "na prática" (PES), ou "na teoria" (FM). E, honestamente, acho que eles me ajudaram a melhorar minhas performances nas minhas peladas semanais. Claro que conta muito mais o esforço e a prática de jogar toda semana, mas o jogo me ajuda a pensar melhor quanto a movimentação, posicionamento e etc... O recurso visual, com certeza, é uma das maiores formas de aprendizado e de mais fácil memorização.
Leroi Oliveira
Jogar Pro Evolution Soccer não vai tornar alguém no Neymar, na verdade o oposto disto. Conheço muita gente que quando se convida para um futebol fala, só se for Pro Evolution. Sendo assim só porque se está jogando futebol no video game, não se sai com uma enorme vontade de jogar futebol. O mesmo se dá com jogos de violência ou tiro, guerra. Se fosse assim, deveriam ser proibidos seriados e filmes de guerra, assassinato seriais killers. O porque disto tudo, não acredito que seja a mídia manipulando as pessoas, ou uma tática de marketing. Entendo que desde pequeno as crianças tem acesso muito fácil, e muitas vezes estimulado a video games, e considerando os fatores culturais, cenas de violência, crueldade, sexo, são coisas não condizentes com crianças pequenas. Ex: Não vais convidar a familia toda para assistir um filme pornô. A hipocresia está que nas novelas da globo, tem quase tudo isto, e não aparece uma propaganda contra. Concluindo, sempre joguei jogos de arma, tiro, e nunca atirei com uma arma.
Gaba
Izzy Nobre, ainda não acho que a sua afirmação sobre ser uma obra de arte esteja correta. Como o Raphael falou, um jogo é uma forma diferente de contar uma história (eu compartilho dessa opinião), e como ele disse, a história é que é uma arte. Entretanto nem todos os jogos são uma obra de arte. Eu posso dizer aqui alguns jogos que me surpreenderam, e que me fizeram falar: "Esse jogo realmente é uma obra de arte", mas a partir desse momento, fica MUITO relativo. Então eu prefiro, categorizar os jogos, APENAS como forma de entretenimento e nada mais.
Flavio Salviano Isawa
O comentário do Raphael Aleixo é bastante coerente, mas faço um adendo. Hoje, o mundo da história da arte já está bastante desenvolvido. Foi-se a época de considerar as maiores fontes históricas textos perdidos da antiguidade. Obras como as do Impressionismo no século XIX foram, junto com um estudo conjunto com relatos da época, de máxima importância para determinar com certo grau de certeza como a sociedade da época vivia. Assim como a arte tomou força como fonte de informações históricas e sociológicas, num futuro distante, o cinema, a fotografia, os games e etc., também serão fontes. Há de se explicar - e provavelmente a conclusão será feita daqui a 50 anos - por que numa determinada época (agora) existe um número quase gigantesco de jogos FPS. Ou por que as pessoas usam o Instagram. Ou por que nos anos 60 propagandas de 60 segundos tinham 3 cortes e hoje propagandas de 30 segundos possuem 40 para mais cortes. Agora, considerar algo que possui um papel fundamental como fonte histórica como arte é um passo maior que a perna, até porque hoje a arte contemporânea em sua essência é completamente díspare à essência dos jogos. p.s.: o novo jogo da mesma produtora de flow, thatgamecompany, fez um novo jogo que é maravilhoso. Journey. quem tem um ps3 não pode ficar sem jogar.
Rafael Machado de Souza
http://goo.gl/qVHPx se tudo der certo tambem viverei bem mais do que meus netos! muahahahhaha
Thássius Veloso
André, esse livro presta? Vi várias vezes sua capa na livraria, mas nunca confirmei se valia ou não comprá-lo.
Murdock
Já existem filmes e livros contando a história dos jogos, é uma forma de aproximar os games das artes mais convencionais.
Vinícius
:p
Fabio Guilherme Bagatoli
Além disso, faltou comentar a Video Games Live, que se os games ainda não pode ser considerado arte, mas influenciam os outros meios artísticos.
Eduardo Silveira
É óbvio que ele não vai viver para sempre, visto que está morrendo de rir. A não ser que ele vire um zumbi, mas tecnicamente não estará vivo.
Vinícius
Ok ...!! quando chegar nessa época, faça um Edo Tensei, e me invoque para que eu possa ver... :p
André Miranda
Isso me lembrou o livro "Jogador Número Um", onde no futuro o mundo e a sociedade vive em função dos videogames.
Guilherme Thomas
Matar pessoas no videogame pode não te transformar em um assassino, assim como jogar PES não te transforma em um jogador de futebol. Mas, te dá informações. Sim, muito mais perigoso que uma arma é quem sabe usar uma arma. Não concordo com a visão da maioria das pessoas, de que jogos de violência te deixarão violentos, acredito que isso depende MUITO de como a pessoa foi educada, como ela foi criada, como as influências exteriores e a capacidade de racionalização dela são eficazes. Cabe o bom senso a cada um.
Vinícius
shauhsuahsua ...! Mesma situação comigo, porém no Halo, o pessoal do meu time reunia sempre pra matar um cara e eu jogava uma bomba, o cara morria antes da bomba explodir e eu matava o pessoal do meu time. A pontuação do time ficou negativa, pois isso se repetiu mais algumas vezes. Mais morro que mato, mas jogo mais pra descontrair e desestressar, prefiro as campanhas!
Tayler Padilha
Podem rir; não serão você que irão viver para sempre, serei eu mesmo. (^.^)
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