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Xiaomi, a empresa que conquistou o ex-VP do Android

O que a chinesa tem para conquistar um dos principais executivos do Google?

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Há poucos dias, Hugo Barra, brasileiro que ocupava o posto de VP do sistema operacional Android, anunciou sua saída do Google para assumir a vice-presidência global da chinesa Xiaomi. Fofocas do mundo de tecnologia à parte – quem quiser ler sobre o assunto pode se esbaldar nos vários links da “Caras” do Vale do Silício – o que foi que atraiu a atenção de Barra para o oriente?

A ilustre (e meteórica) desconhecida

Conhecida na mídia ocidental como a “Apple do oriente“, em especial por conta de comparações que os próprios norte-americanos têm feito pra compreender a empresa, a Xiaomi (pronuncia-se “chiaô-mi”) tem apenas 3,5 anos de vida, mas já conta com quase 2,5 mil colaboradores e tem renda anual na casa dos 2 bilhões de dólares.

Mas talvez o principal motivo para o desconhecimento da marca no ocidente é a restrição de atuação que a própria empresa definiu – a fabricante de celulares vende apenas para China, Hong Kong e Taiwan, o que não colocou a marca no radar dos mercados norte-americano e europeu, os principais do lado de cá do globo. Isso explica bastante o desconhecimento geral e também o interesse de Hugo Barra – não se trata de uma empresica, mas de uma emergente do mercado asiático, comparada com a Apple e até com o próprio Google, em alguns casos.

Como bem destacou John Kneeland, da Nokia, a Xiaomi nem mesmo vendia celulares quando a Nokia era a maior fabricante de celulares do mundo, mas em pouquíssimo tempo a chinesa conseguiu conquistar um valor de mercado bastante relevante – está avaliada em cerca de 10 bilhões de dólares, substancialmente mais do que os 7,2 bilhões pagos pela Microsoft pela divisão de telefonia da finlandesa. Em vendas de dispositivos, ela também deixa a Apple comendo poeira – a Xiaomi detém a sexta posição no marketshare chinês de smartphones no 2º trimestre deste ano, acima da sétima posição conquistada pela Apple.

Apple na apresentação, chinesa na execução

Se existe uma coisa que os chineses sabem fazer bem é copiar, e não adianta disfarçar, porque sei que você tem aí na sua casa um cabo, capinha ou acessório qualquer comprado nos diversos sites xing-ling (DX mandou lembranças) que replicam como ninguém acessórios mais caros de outras fabricantes.

Desde o lançamento do seu primeiro smartphone, em agosto de 2011, a empresa tem apostado em se tornar um sonho de consumo para o seu público alvo, copiando a famosa estratégia da Apple. A inspiração em Steve Jobs fica bastante nítida ao comparar a apresentação e o estilo de se vestir do CEO Lei Jun, que cuidadosamente replica o esquema “jeans e camiseta preta”, que ficou conhecido como a vestimenta-assinatura de Jobs, além de usar o linguajar e as técnicas de oratória do falecido CEO da Apple. Não bota fé? Olhe essas imagens:

SteveJobsLeiJun

Steve-Jobs-and-Lei-Jun

O mockup de Apple chinesa, no entanto, parece acabar na estética da coisa toda. Ao invés de apostar em suntuosas lojas conceito para vender seus produtos, a Xiaomi economiza recursos e faz suas vendas apenas através da loja online. Não tem nem mesmo parceria com distribuidores ou redes de lojas que pudessem abrigar um quiosquezinho da marca. Seus smartphones também não parecem ter como premissa serem inovadores, mas sim se ajustarem às necessidades dos consumidores.

Uma das vantagens mais apontadas na marca é o custo-benefício e a possibilidade de customizar o software, que é baseado no sistema operacional Android, de acordo com as preferências do usuário. Conhecido como MIUI, o Android personalizado da Xiaomi lembra um pouco o iOS, e explica bastante o interesse na contratação de um dos top executivos do sistema operacional do Google.

Especialistas no mercado asiático, como o repórter C. Custer, do Tech In Asia, também ressaltam que essa alcunha de “Apple do Oriente” não é usada entre as publicações de tecnologia locais – copiar a estética de Jobs parece apenas um detalhe, e há quem negue até mesmo que os aparelhos produzidos pela Xiaomi sejam versões “low budget” de iPhones – uma comparação do modelo MiPhone 1 com o iPhone 4 argumenta que os dispositivos não são nem um pouco parecidos, mas, verdade seja dita, é uma questão bastante subjetiva para argumentar.

Enquanto o design pode ser subjetivo, o custo dos aparelhos é bastante objetivo e fácil de comparar. A Apple construiu uma aura de que seu valor (caríssimo, por sinal) é equivalente à qualidade do dispositivo que ela vende, o que transformou-se em uma distorcida noção de preço justo (brace yourselves, Applefags are coming). A Xiaomi quis tornar-se um sonho de consumo bem mais possível. O mais recente lançamento da marca, o Hongmi, custa 130 dólares, MUITO menos do que os 650 dólares do iPhone 5. Até o MiPhone 2, considerado um modelo “premium”, é mais barato que a última geração do smartphone da Apple – sai por cerca de US$ 350.

Com preços assim tão competitivos – e, portanto, um baixo lucro por unidade vendida – a Xiaomi aposta mais nos serviços atrelados aos dispositivos da marca do que no total de vendas de cada aparelho. A customização do MIUI também faz com que os usuários sejam convidados a usar serviços da empresa, como as mensagens via nuvem, apps de segurança e funcionalidades de backup das informações.

Despontando aos poucos para os desavisados ocidentais

A chegada de Hugo Barra como VP global da Xiaomi pode ajudar a empresa a melhorar seu posicionamento de marca de forma mundial. Desde a notícia da chegada do ex-Googler, a mídia especializada norte-americana tem trabalhado melhor o assunto, evitando as pejorativas comparações com a Apple e apostando no poder da “massa de usuários” chineses.

Uma das mais recentes informações divulgadas é que App Store da Xiaomi atingiu 1 bilhão de downloads em pouco mais de 1 ano – 391 dias pra ser mais exata, diferença pequena se comparado com os 286 dias que a Apple precisou para chegar no mesmo número de downloads na sua App Store, ainda mais se levarmos em conta que a App Store da Xiaomi não oferece downloads gratuitos. Quanto tempo será que a Apple precisaria pra alcançar a mesma métrica se não houvessem tantos apps grátis?

O fato é que agora a Xiaomi entrou para o radar de tecnologia e negócios – basta conferir matérias em grandes mídias como a Forbes e o NYT – e ter trazido Hugo Barra para o time apenas ajudou a divulgar melhor a marca e seus produtos do lado de cá do mundo. A contratação de um dos executivos do Android também pode sugerir que a empresa estaria interessada em expandir seu mercado de atuação, mas ainda não se sabe para onde. Será que vem até o Brasil?