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Quando o assunto é jogo, ignorância nem sempre é uma benção

Izzy Nobre

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Quando a internet começou a ganhar espaço na nossa consciência coletiva lá pelos anos 90 (seja através de matérias na Veja ou na trama daquela novela com ciganos que curtiam mIRC e mutantes), uma das maiores promessas era a democratização da informação. Eu mal sabia o que “informação” era, e sabia menos ainda o que “democratização” significava. Entretanto, hoje eu imaginei uma forma perfeita de explicar democratização da informação pro Izzy Nobre de 1995.

Bastava dizer que eu não precisaria mais comprar jogos (ou, mais realisticamente, pedir pra meu pai comprar jogos) baseando-se apenas na imagem da caixa.

Hoje em dia a overdose de informação é tamanha que requer um esforço considerável (ainda mais se você é nerd dependente de internet) para se isolar da avalanche cognitiva. Quando alguém reclama que preferia a época em que você chegava no cinema e era surpreendido com um filme totalmente desconhecido, e promete pra si mesmo que de agora em diante evitará rumores e até trailers de filmes pra recapturar aquela experiência de assistir um filme sem saber do que se trata, você sabe que isso não seria fácil.

O mesmo vale pra jogos. Primeiro lemos os rumores da produção de um jogo. Depois, vemos screenshots. Em seguida temos teasers, acompanhados em breve por trailers. Adicione os aparentemente inesgotáveis vlogs de gameplay de jogos, a nova moda no YouTube, e dá até pra ter impressão que já vimos tudo que o jogo tem pra mostrar sem sequer ter tocado na caixa dele.

Mas houve de fato uma época em que era completamente o inverso. No período em que revistas especializadas eram sua única fonte de informação “confiável” (com aspas merecidas) sobre gaming, vivíamos no escuro em relação a lançamentos. Às vezes um amigo comentava sobre um lançamento vindouro que ele leu numa revista – e era praticamente só isso.

Naqueles tempos, o mecanismo de descoberta de games era chegar na casa dos primos e ver Mario Kart pela primeira vez e não entender por que diabos o Mario estava dirigindo um carro. Ou, na locadora, arriscar o seu suado um real naquele jogo que você ouviu falar que era bacana através de um amigo cujo gosto você geralmente aprova.

O risco maior era naquelas raras ocasiões em que seus pais resolviam te presentear com um jogo no Natal ou aniversário. Não sei vocês, mas pra mim era sempre um dilema: eu poderia ir na aposta segura de um Mortal Kombat II ou Metal Warriors, jogos que eu sabia que iria adorar, mas cujas locações frequentes na locadora do bairro me deixavam em dúvida se ainda havia algo a ser explorado naqueles jogos. “Pô, Turtles in Time é realmente massa pra caramba, mas já joguei tanto isso aí…”

A outra opção era mais aventureira: escolher um jogo totalmente a esmo, baseando-se em nada senão a sonoridade do nome e os nanoscreenshots na caixa. Várias vezes apelei para esta estratégia. A balconista da Mesbla abria aquele mostruário, pegava o cartucho e estendia para mim. Eu colava o verso do nariz na caixa, tentando discernir aquelas imagenzinhas do tamanho de selos.

E levando em consideração a caixa do game, sabe qual a diferença entre um jogo excelente e um jogo tosco?

Não havia nenhuma. Em ambos os casos, o time de marketing que bolou as descrições do verso da caixa elogiarão o jogo como se este fosse uma dádiva divina. E em ambos os casos, você tinha três ou no máximo quatro imagens quase indiscerníveis do jogo. Era pura loteria.

Vez ou outra você dava sorte. Mais frequentemente, você acabava com uma porcaria de jogo que seria o candidato principal a uma futura troca com algum garoto incauto no colégio. O meu James Bond Jr do Super Nintendo, baseado no insosso e ilógico desenho que passava na Globo (como assim, James Bond Júnior é sobrinho do James Bond?!) foi um desses casos.

Acho que a última compra gamer às cegas da qual me arrependi dessa forma foi com Splinter Cell para Game Boy Advance, comprado pura e exclusivamente porque vi o nome do Tom Clancy no título (sou fã dos livros do cara desde moleque e era também familiarizado com a série Rainbow Six). Joguei-o por três ou quatro vezes e me arrependi tanto da compra que, ao perder o cartucho numa mudança, nem me importei muito.

Em defesa do game, ele não era horrível nem nada do tipo, mas definitivamente não era o tipo de jogo que eu tinha intenção de jogar num console portátil.

Vale apontar que isso aconteceu em 2003, então eu não tinha exatamente a desculpa da falta da internet dessa compra mal informada. Acontece que, naquela época, eu ainda não havia adquirido o hábito de ler resenhas e me submergir no consumo de informação sobre lançamentos. Larguei os games pouco depois de quebrar meu SNES e eu estava reaprendendo a ser gamer com aquele Game Boy Advance. Entrar em sites especializados veio um pouco depois – o preço disso foram algumas compras desinformadas.

Você sente saudade da época em que descobríamos jogos sensacionais de forma totalmente acidental? É possível realmente se isolar do bombardeio de informações pra tentar voltar um pouco à época em que nos maravilhávamos com lançamentos?