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E quando videogames te inspiram a seguir uma determinada carreira?

Izzy Nobre

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Há uma anedota antiga na internet (que, depois de alguma pesquisa, descobri ser de crédito do humorista inglês Marcus Brigstocke) que você já deve ter ouvido. Ela diz que se Pac-Man (aqui servindo como uma metáfora para games em geral) afetassem a vida da molecada, estas estariam hoje perambulando por ambientes escuros, ouvindo música eletrônica repetitiva e pondo pílulas estranhas na boca.

Uma outra versão desta piada emprega The Sims como agente de influência, ironizando o fato de que jogávamos The Sims quando mais novos e agora temos empregos, contas a pagar e esposas/maridos. Nunca morri nadando numa piscina porque alguém removeu a escadinha, mas por outro lado ainda sou jovem – nunca se sabe.

Apesar dessas brincadeiras, eu notei hoje algo curioso: dois de meus jogos favoritos tiveram um pouco de influência nas minhas escolhas acadêmicas e profissionais.

Como vários outros jovens adultos, eu tive várias súbitas guinadas em interesses acadêmicos. Quando morava no Brasil, fazia Bacharelado em Física (por influência de uma infância deslumbrada por ciência e de familiares físicos). Acabei tendo que abandonar a faculdade para emigrar para o Canadá; anos mais tarde o hábito de discutir na internet me levou a cogitar uma carreira jurídica.

Quando li pela primeira vez num fórum gamer qualquer a respeito de um “simulador de advogado no Nintendo DS”, eu nem acreditei no que estava lendo. Exigi uma explicação com toda a urgência que uma mensagem em caps lock e negrito pudesse passar, e a resposta veio em seguida:

Não precisa rir da minha inocência; eu mesmo vou e admito que jogar Phoenix Wright está pra “ser um advogado de fato” em direta proporção que jogar Guitar Hero está pra “ser um rockstar”. Simplesmente não é a mesma coisa nem de longe. O nível de realismo está entre “enciclopédia ilustrada do universo Star Wars” e “leis da física de acordo com Hanna Barbera”.

Entretanto, o point and click adventure japonês me intrigou. Um jogo de videogame em que o herói é um advogado, e que glamuriza emocionantíssimos processos como “ler a declaração de uma testemunha”? Pra quem já tem um leve interesse na profissão é irresistível.

Jamais esquecerei a primeira vez em que usei o microfone do DS pra berrar um sonoro “OBJECTION!”, uma frase que, quem sabe, talvez eu mesmo tivesse a chance de um dia entonar diante um juiz. Eis a vantagem de morar no exterior: eu poderia um dia talvez usar justamente o verbete em inglês, com toda o teor dramático e cinematográfico que sua pronúncia original confere!

E de fato adentrei os estudos da profissão jurídica. Mas, lá pelo meio do caminho, decidi que não era pra mim. E parti pra outra carreira, quase tão diametralmente oposta ao direito como direito era de física: a área médica.

Curiosamente, hoje lembrei que posso também apontar pra um jogo que cultivou um interesse nessa futura carreira.

Este é Life and Death 2, um simulador de hospital (especificamente de neurocirurgia) lançado em 1990. Diferente do Theme Hospital, um jogo do mesmo gênero e  imensamente mais popular, Life and Death 2 era brutalmente realista (dentro dos limites, óbvio).

Pra você ter uma noção, o modo de tutorial do jogo é uma sala de aula em que um professor ensina você a diagnosticar inúmeras moléstias cerebrais (fazendo testes físicos no paciente e requerindo determinados exames), e em seguida como opera-las. Pra lembrar das palavras chaves do passo-a-passo das cirurgias, eu até fazia anotações num caderinho enquanto lia as explicações. Isso por si só é um esforço acadêmico superior ao que eu exibi em boa parte da minha carreira estudantil.

E o Life and Death 2 era impiedosamente difícil. Por causa do meu parco domínio da língua inglesa na época, o único mal que eu aprendi a diagnosticar e operar com sucesso (e entenda “sucesso” neste contexto como “matei apenas 30% dos pacientes”, uma taxa que eu espero não repetir na minha carreira real) era o tal do hematoma subdural. Sabe quando você leva uma porrada muito grande na unha e você ganha aquela mancha de sangue coagulado embaixo dela? Então, se prestei atenção às aulas do o Life and Death 2, o hematoma subdural é a mesma coisa, mas na sua cachola.


(Vídeo do YouTube)

Não posso creditar estes jogos inteiramente pelas minhas decisões acadêmicas, evidentemente. No entanto, quando tudo que a gente ouve em relação a influência dos games é negativo, é curioso apontar que por duas vezes eu me vi embarcando numa carreira relacionada a algo que eu praticava nos videogames. Há quem diga que inspirar moleques a se tornar advogados não é necessariamente algo positivo, mas aí entraríamos em outra discussão totalmente tangente a games.

Agora, a real dúvida agora é como é que eu nunca me interessei em virar encanador.