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Alley Cat fez parte da minha infância (talvez da sua também)

"Discutir estratégias de Alley Cat no pátio da escola era essencialmente a nossa versão dos fóruns de gamers."

Izzy Nobre

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De certa forma eu estava destinado a ser um nerd gamer. Meu pai, como talvez seja o caso de muitos de vocês, trabalhou como técnico de informática nos anos 1980 e 1990. Isso fez com que nossa casa estivesse sempre abarrotada de computadores e componentes — um fator da minha infância, acabo de perceber, que se repete em minha casa atual. Na minha visão periférica jazem dois gabinetes de PCs antigos, além de algumas placas de vídeo falecidas e HDs velhos com mais vírus que as tais maçanetas e corrimãos dos quais o “Fantástico” e a “Superinteressante” tanto alertavam.

A ligação dos computadores com os games era inevitável já naquela época. A pirataria dava seus primeiros passos: um joguinho bacana (que, numa época pré-internet, eu não faço a menor ideia de como os caras adquiriam) ganhava moradia num disquete de 5,25 polegadas bem surrado e era repassado pra todo o pessoal da repartição.

Foram nesses primordiais gestos de desrespeito a direitos autorais em que eu entrei em contato com os primeiros games. Era sempre assim: meu pai chegava em casa com um disquetinho, descrevendo o novo jogo bacana que o tio Fulano (seguindo a regra da época, amigos próximos de trabalho do pai viravam tios. Ainda se faz isso?) havia descolado.

E começava o processo: liga o PC, enfia o disquete, desce aquela trava pra manter o bicho firme no lugar (lembram disso?), digita alguns breves comandos no DOS e lá estava o novo joguinho, em toda sua glória de paleta de 8 cores e sons que mal rivalizavam a variedade harmônica de uma campainha.

Num desses dias, o que surgiu após esse pequeno ritual foi uma das splash screens que me acompanhou mais durante minha infância do que boa parte dos meus próprios familiares.

Eu tenho plena certeza que a captura de tela (curiosamente em widescreen, numa época em que nosso entretenimento televisivo chegava em nossas casas através de uma caixa quadradona) também fez parte importante da infância de muita gente.

Alley Cat é um produto curioso daquela época na indústria gamer (que mal se podia chamar de “indústria”, na realidade; especialmente em se tratando de jogos de computador). Tá vendo o “by Bill Williams” ali? Aquilo é um testamento dos tempos em que um único sujeito se encarregava de fazer tudo num game: a programação, a arte, a música, literalmente tudo.

Aliás, vocês talvez tenham jogado outra obra do tal Bill Williams.

Reza a lenda que os desentendimentos entre o desenvolvedor e a produtora de Bart’s Nightmare foram tamanhos que o Williams simplesmente abandonou a indústria de games.

Alley Cat era impressionante na variedade do gameplay. A maioria dos jogos contemporâneos oferecia pouquíssima variação na mecânica da jogabilidade. Veja Pitfall, por exemplo: uma eterna caminhada pra direita ou para a esquerda, pulando de vez em quando por cima de alguns elementos do cenário. O genial Prince of Persia, a despeito das inovações técnicas que permitiram uma fluidez de animação sem precedentes, era mais ou menos a mesma coisa. Burger Time? O cenário muda um pouquinho, mas o jogo é essencialmente a mesma coisa o tempo inteiro.

Era nisso que Alley Cat se destacava. O próprio estágio de seleção de fases era um jogo: no chão do lado de fora de um prédio (constantemente patrulhado por um cão mal-intencionado), o gatinho deve alcançar primeiro a cerca, e em seguida navegar os varais pra entrar nas janelas. É preciso tomar cuidado com os objetos que os moradores constantemente jogam pelas janelas, também.

Numa das fases você caça peixinhos que dividem um aquário com enguias elétricas. Na outra, você invade uma sala repleta de cachorros dormindo e tem que comer toda a ração deles sem que os mesmos acordem. A minha favorita era aquela em que o gatinho precisava primeiro derrubar uma gaiola de uma mesa, e em seguida caçar o passarinho que saia dela.

É curioso que a lembrança de Alley Cat tenha perdurado por tanto tempo para mim, já que este não foi o primeiro jogo de computador que eu joguei (este título fica dividido entre Space Invaders e o obscuro Digger). Acho que a longevidade de Alley Cat ocorre porque ele era um dos poucos jogos que todos os outros moleques com acesso a computadores também conheciam, o que resultou nos primeiros grupinhos da escola que se formaram por causa da mútua atração por joguinhos eletrônicos. Discutir estratégias de Alley Cat no pátio da escola era essencialmente a nossa versão dos fóruns de gamers.

Digo mais: foram aquelas primeiras experiências de encontrar outros moleques que conheciam o mesmo joguinho que eu e que queriam conversar sobre aquilo que instalaram os alicerces do que viria a ser uma vida inteira dedicada aos videogames. A primeira lenda de game que ouvi na vida, inclusive, nasceu numa dessas pequenas reuniões: moleques narrando mirabolantes fases inexistentes que, vendo pelo lado positivo, mostrava que alguns tinham um talento nato pra game designer.

É interessante imaginar que algo que veio a moldar minha personalidade e meu hobby mais antigo entrou na minha vida totalmente por acaso: um amigo do meu pai emprestando a ele um disquete com o bom e velho “jogo do gatinho”. Um gesto aparentemente tão trivial, com aparentemente nenhuma consequência duradoura, que praticamente me fez ser quem eu sou hoje.