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A expectativa do lançamento de um grande jogo

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No momento em que escrevo estas linhas, uma boa parcela da comunidade gamer mundial comemora o lançamento do terceiro capítulo da franquia Diablo (alguns até já acumulam horas jogando). Dá até dor admitir isso, mas eu infelizmente fiquei de fora desse mega evento que é Diablo III — ou, pelo menos, por algumas semanas.

A culpada por isso é minha placa de vídeo, velha de guerra e moribunda, cuja operação provoca ruídos similares aos de um carro de Fórmula 1 acelerando numa reta. Além de fazer o gabinete inteiro zunir graças ao seu cooler todo estourado e provavelmente desalinhado (sim, já tentei limpá-lo e não adiantou), o componente com o pé na cova às vezes causa o desligamento do computador inteiro. Neste exato momento a placa está ronronando daquela forma ritmada que já lhe é característica.

De uma placa de vídeo comprada em 2009 não dá pra esperar muito. Além disso, meu casamento iminente está redirecionando toda a minha renda para preparativos matrimoniais. Por isso, serei um dos infelizes que só irá pegar Diablo III meses depois de todos os seus amigos.

E isso é uma porcaria. Aquela onda de pegar o game logo no lançamento (como eu acredito que uma boa parte de vocês fez com o terceiro Diablo), e de se imergir no assunto do jogo durante uma ou duas semanas sem parar, faz parte intrínseca da experiência.

Tento participar disso com meus jogos favoritos. Um dos lançamentos que mais me prendeu a atenção (naquele esquema de marcar o dia no calendário e ficar contando “faltam só 6 dias! Agora faltam só 5 dias! Tá chegando!”) foi o de GTA IV.

Sempre fui um fã inveterado da série, desde os tempos do primeiro jogo no PC. Acompanhei todos os lançamentos; quando o quarto jogo foi lançado (o primeiro da série que veio ao mundo quando eu já morava aqui no Canadá), decidi que era imprescindível que eu comparecesse ao lançamento à meia-noite.

Nestes eventos à meia-noite, em que as lojas do ramo atipicamente se abrem às 00:01 do dia do lançamento, elas tentam oferecer maiores incentivos para o freguês que a outra. Quando as lojas são próximas (foi o caso do evento para GTA4, a coisa adquire proporções de rivalidade que lembram aquela cena de duelo de piano entre o Patolino e o Donald em Uma Cilada para Roger Rabbit.

Uma das lojas havia montado uma barraquinha com DJ e belíssimas modelos distribuindo brindezinhos com a marca de GTA (bonés, pirulitos, essas coisas). A outra, que ficava a menos de 200 metros de distância, estava fazendo gincanas e sorteando outros games da Rockstar. Optei pelos pirulitos e modelos.

O clima de camaradagem e descontração entre companheiros gamers (todos completos desconhecidos que tinham em comum simplesmente o fato de que estavam negligenciando juntos a necessidade básica do sono pra jogar GTA IV um pouco antes dos outros) era demais. A conversa fluía facilmente, o senso de humor era praticamente coletivo, todo mundo animadíssimo sobre o lançamento e desfiando suas histórias pessoais de envolvimento com a franquia.

Nesse momento eu pude fazer pose de “fã maioral”; enquanto boa parcela da turma lá foi conquistada pela franquia graças aos mais recentes jogos em 3D, eu pude contar que nos “velhos tempos” GTA era um jogo de ação com gráficos 2D, e visto inteiramente “por cima”.

É curioso que algo tão trivial (no caso, ter jogado um game que a turma ao redor desconhecia ou era jovem demais para ter experimentado) pode servir como uma medalha de honra ao mérito. A cultura gamer tem dessas, né.

Outro lançamento recente que foi praticamente um evento cultural foi o de Skyrim. A série Elder Scrolls é um clássico de peso, que é justamente o tipo de franquia que provoca esse frenesi absurdo durante um lançamento.


(Vídeo no YouTube)

Agora que paro pra pensar, não lembro de nenhum mega-lançamento antecipadíssimo que não fosse uma continuação. O que faz bastante sentido, afinal de contas: por que um game completamente novo teria uma fanbase tão grande e disposta a madrugar na frente de uma loja pra estarem entre os primeiros a jogarem?

O número de malucos que pediram férias do trabalho pra ficar em casa jogando Skyrim sem parar (eu conheço pessoalmente duas pessoas que fizeram isso, uma delas meu próprio chefe) deve ter sido capaz de afetar o produto interno bruto norte-americano, eu tenho certeza. Durante alguns dias, nenhum fórum ou status de Facebook de gamer falava de outra coisa. É até estranho se acostumar com o fato de que a febre Skyrim finalmente passou.

Outro lançamento aguardadíssimo que compareci foi o de Gears of War 2. As filas do lado de fora das lojas de game do shopping (aqui na minha cidade não houve midnight launch, o que é uma pena) rivalizavam as da Apple Store em semana de lançamento de iPhone novo. Era uma cena esquisita: atrás do balcão, literalmente uma MONTANHA de caixas de Gears of War 2. Era como se alguém tivesse apenas virado ali mesmo várias caixas de papelão lotadas com cópias do jogo, porque provavelmente esse foi o método usado mesmo.

Era esquisito como haviam agilizado a transação: partia-se do pressuposto que todo cliente que entrava na loja queria Gears of War 2, e o balconista literalmente apenas perguntava apenas se o sujeito queria a versão “comum” ou a de colecionador. Ao receber a resposta, o sujeito inclinava-se pra trás e puxava uma caixa da pilha, e efetuava a compra.

É estranho, aliás, como existe um sentimento de pena em relação aos amigos que não puderam fazer parte do evento que é um lançamento desses. Tinha sempre o amigo que estava meio sem grana, ou o que ainda não teve tempo de passar no shopping. Pra nós, que já estavamos praticamente zerando o jogo um dia após do seu lançamento, dava realmente pena do amigo retardatário, como se fosse um pobre camponês ignorante.

Dessa vez, o camponês ignorante sou eu. Quem diria.

É uma pena que tive que ficar de fora do lançamento de Diablo 3. Se bem que, pensando bem, eu não preciso de um fotógrafo pro meu casamento mesmo, né? Vamos ver quando custa aqui uma placa de vídeo bacana…